Em raro momento de activo colaboracionismo com o Governo no seu esforço para reduzir os encargos insuportáveis com o nosso pletórico Estado Social, propus ontem a opção pelo ensino doméstico como a regra para os nossos alunos, pois isso significaria a quase completa desnecessidade de professores (que poderiam emigrar ou transformar-se e às suas famílias em sem-abrigo desde que não requeressem subsídio de desemprego ou adoecessem e aparecessem pelas urgência hospitalares) e quiçá mesmo de instalações escolares (que poderiam ser alugadas, vendidas ou concessionadas a um qualquer empreendedor latino-americano ou luso-africano em nome da Lusofonia e tropicalidade, agora que os eslavos parecem desinteressados).

Mas esse pensamento poderia parecer isolado ou mesmo algo carente de um contexto que lhe acrescentasse significado relevante. O que não é o caso, pois faz parte de um Plano Maior que se me desceu sobre a testa em dia de natal na forma da estrela da árvore natalícia que se desprendeu e, como se fosse tomada por uma alma própria e velocidade desafiadora das suas teóricas capacidades cinéticas, me veio atingir aqui plenamente entre os meus míopes e atrofiados globos oculares, raspando com justiça as cangalhas que me servem para minorar a curteza de vistas.

E então VI!

VI que o ensino doméstico faz todo o sentido num modelo de sociedade humilde e tradicional, empobrecida por vocação e volição, em que o trabalho árduo do pai de família e cabeça de casal ganha-pão (regressado aos campos e aos mares que sempre tanto pão, vinho, bacalhau e sardinha deram ao povo português) se traduz em comida esticada a uma mesa de alegria e suave burburinho infantil, com uma mãe doméstica e liberta de afazeres laborais que perturbem o exercício (preferencialmente repetido) da maternidade (preferencialmente com parto assistido por vizinha conhecedora das artes e sem recurso aos luxos dos hospitais que tanto despersonalizaram o quadro íntimo do acto de dar à luz) e da gestão doméstica de um orçamento que se pretende ajustado aos interesses maiores de um Estado Magro e de uma sociedade esquelética q.b, o suficiente para diminuir o risco de doenças típicas da riqueza abastada como o diabetes, o colesterol ou mesmo aqueles achaques e estados depressivos, apenas nascidos da ambição do Ter e não do Ser.

E a sensação de epifania que se abateu sobre mim, a par de uma cólica renal causada pela água do poço das traseiras do quintal e de uma urticária nascida de um acidente com as órtigas do cantinho recatado que nos serve de retrete arejada a céu aberto, ali junto do raquítico carvalho centenário, transformou-se em imagens de uma intensidade tal que se me vieram as lágrimas aos olhos e fui obrigado a abandonar a escrita no meu novo caderno pautado onde aponto estes pensamentos que se me ocorrem no ano da graça e glória de 2014, o segundo do reinado iluminado de D. Pedro VI, o dos Passos, e do governo de seu secretário de Estado, Miguel de Vasconcelos y Pombal.

Caderno Escolar