Poderia elaborar prosa demorada sobre o tema, mas a coisa é simples: somos governados por uma coligação relativamente espúria de gente que de Portugal tem uma ideia instrumental ou muito negativa, de nação incompleta ou pátria madrasta, de que não se orgulham e que querem mudar a todo o custo, nem que por isso tenham que extinguir os portugueses que não pensam como eles.

Correndo o risco de ser adjectivado de preconceituoso, gostaria de deixar as coisas bem claras.

  • Há entre os governantes, quem os rodeia e inspira, quem descenda de grupos sociais para quem o 25 de Abril – e por tabela, a “Esquerda”, vista assim como uma espécie de coisa ameaçadora e multiforme – cortou as esperanças de maior prosperidade, por cá ou além-mar e agora sente ser o tempo certo para se desforrar de quem os descamisou. Muitos agem em nome dos pais, o que é bonito, não se esquecessem que todos temos pais que, antes ou depois, alguém descamisou.
  • Há entre os governantes, quem os rodeia e inspira, uma certa auto-considerada elite intelectual, com laivos de cosmopolitismo estrangeirado, que continua a encarar o país como irremediavelmente atávico e incapaz de aderir à sua mundivisão esclarecida e inovadora. Uns sempre por cá andaram, outros foram passar verniz lá fora em estadias mais ou menos prologadas em campus de variável notoriedade ou cargos secundários em empresas notáveis.
  • Há entre os governantes, quem os rodeia e inspira, alguns restos daquelas elites de outrora, fascinadas com a criação de uma sociedade nova, a partir da base, seja a que preço for, que sentem poder agora, de modo algo enviesado, alcançar o que não conseguiram na sua juventude povoada de idealismos voluntaristas.

Os três grupos unem-se na profunda desafeição por aquilo que lhes cheira a uma identidade nacional portuguesa, que assume defeitos e virtudes, que não se envergonha do passado, mais ou menos distante, e que desconfia de gente que se acha muito esclarecida só porque leu uns livros ou, paradoxalmente, porque não lê porque sempre se safaram com os apontamentos dos outros.

É uma coligação que, salvo excepções, não gosta de Portugal, mas a quem não desagradava excessivamente o All-Garve pacóvio do ministro Pinho. É uma coligação de gente a quem a História incomoda e, em incomodando, a reescreve ou apaga. Que pode bater no peito em defesa do interesse nacional e bem público, mas que tem desses conceitos noções mais próximas de interesses privados e bens particulares.

É uma coligação sem ideologia particular (salvo um ou outro refundador mais eudito) mas com uma atitude tendencialmente totalitária, no que contem de achar que tem do seu lado a Razão e a deve impor através de todos os meios possíveis, pois os seus fins são alegadamente os melhores.

São jacobinos, por enquanto sem guilhotina física, que afirmam abominar o jacobinismo, mesmo quando já o perfilharam.

O resto, enfim, o resto, percebe-se na base da equivalência. Ou da tolerância com.

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