Mas é infelizmente o país desejado por muitos dos governantes e daqueles que orbitam o poder, reclamando dos outros aquilo que não dão.

O país do Pedro, do Miguel e do Vítor que, em especial nos dois primeiros casos, parecem demasiado confortáveis num papel que os parece deslumbrar pelo poder assim à mão. No caso do segundo, o ar divertido dos primeiros tempos tem dado espaço a um olhar fizo, que sinceramente me preocupa em termos humanos.

Mais um Dia de Desemprego

Mais um dia de desemprego, mais uma apresentação quinzenal. Procuro lugar de estacionamento nas ruas envolventes à Câmara Municipal, malditas máquinas automáticas, introduzo-lhe uma moeda das castanhas e já vão com sorte. Reparo na maior parte dos carros um cartão de funcionário da Câmara, estes não pagam, “ok eu sou cidadã de 2ª”. Entro no edifício, dirijo um bom dia à funcionária de atendimento geral, no meio de mais um bocejo, lá sai um bom dia arrastado. Átrio vazio, tiro senha, espero, espero porquê se já conheço este filme? O meu número aparece. A visão do costume, entro numa sala com 10 senhoras para atendimento. Estranho, hoje não me olham de cima a baixo. Penso: “não me preparei o suficiente para a ocasião”… Uma come um biscoitinho enquanto faz um like; outra mostra à colega as novas unhas de gel que o maldito teclado teima em roubar; três estão em pé em altas gargalhadas, em frente ao monitor da engraçadinha lá do sítio; vá lá escondem os dentes…Invejo o ar condicionado. Aquele momento é interminável, é só mandar imprimir novo papelinho (penso) não custa nada, faça um esforço mulher!… “Dia 5” diz ela. Eu sei ler, escusa de se esforçar, cada palavra e gesto desta gente dá-me vómitos. Bato a porta. Caminho pelas ruas, a moeda aguenta-se… Lembro-me daquelas caras da escola secundária, as maiores totós lá do sítio. Uso as recordações para me vingar da humilhação que sinto.  Filha de peixe sabe nadar. Cada uma delas tem o emprego que merece. Câmara, hospital, escolas, tudo controlado. Os empregos dos pais, avós, trisavós, seriam delas, quem diria?

Tenho direito ou não ao subsídio de desemprego? Descontei… Acho piada a quem sabe contornar estas leis medonhas. Conheci um pai de uma aluna minha que trabalhava em Espanha e vinha cá de 15 em 15 dias para a apresentação quinzenal… Ladrão por ladrão.

Ainda me lembrei daqueles funcionários que se encostam uns aos outros. Na minha escola do ano passado havia um cavalinho estragado. Comuniquei à Câmara. Foram rápidos na atuação. Chegou uma carrinha cheia de homens, alegria das crianças. Um tirou os parafusos, outro segurou-os, outro tirou a tábua, outro levou tudo para a carrinha, o encarregado dava ordens, o motorista levou-os de volta para a oficina. As crianças observaram como se trabalha quando se é grande, grande equipa, digo eu… O cavalinho ainda hoje está com os ferros ao alto. Não há dinheiro nem para uma tábua, constava-se por ali. Mas há dinheiro para pagar a 5 homens parados na oficina. Os professores são descartáveis, os funcionários das câmaras são intocáveis. O mal dos outros não me concerta mas a justiça sim.

Sigo para o carro, ligo o rádio, nem de propósito os “Deolinda”, hoje é sem dúvida um dia especial… Um dia em que toda uma vida se concentra numa apresentação quinzenal.

M.