… em Sintra. Embora já saiba que acabo sempre a improvisar mais do que a ler os apontamentos ou a seguir o pauerpóinte.

Precisamos de um novo paradigma em Educação?

Para substituir que “velho” paradigma? Aquele que se cristalizou numa mentalidade colectiva, já fora do tempo actual?

Do que falamos quando falamos de algo – “paradigma” – que implica uma modificação radical na forma de conceber um qualquer sistema dominante de crenças num dado contexto espácio temporal. E que tantas vezes tem sido invocado em vão…

 

1. O que queremos mesmo mudar?

O espaço? Vamos abandonar a escola-edifício e a sala de aula como os espaços nucleares da transmissão de conhecimentos?

O tempo? Vamos organizar o tempo pedagógico de uma nova forma, rompendo com uma estrutura curricular padrão?

Os protagonistas? Vamos introduzir novos agentes no processo educativo, para além das experiências correntes na área do modelo de gestão?

O modelo de gestão? Vamos abandonar o actual modelo único de gestão escolar, em que as variações são cuidadosamente regulamentadas?

A administração corrente das escolas? Vamos abandonar os procedimentos híper-burocráticos que inundaram as escolas para obrigar os professores a justificarem e validarem quase todos os seus actos desconformes com a doutrina do “sucesso”?

2. O que podemos ou estamos disponíveis para mudar?

Talvez possamos mudar alguns aspectos, mas é difícil considerar que isso implica uma “mudança de paradigma”.

Ao nível dos processos, até que ponto vamos alterar o modelo de transmissão de conhecimentos, em especial sob a pressão devido das inovações tecnológicas?

Ao nível da dos alunos, até que ponto é possível mudar o modelo no sentido da progressão quase automática ou, em alternativa de uma estrutura complexa de exames?

Em termos de rede Escolar, será mantida a tendência para uma extrema concentração numa lógica típica das teorias de gestão do big is beautiful, das sinergias, das economias de escala e outros conceitos já ultrapassados, apesar da sua aparência “moderna”?

Em relação à organização da carreira dos professores, mais do que uma nova lógica (que poderia ser de clara diferenciação funcional com o tronco comum na docência), teremos capacidade para ir mais longe do que implementar estratégias de estrangulamento da progressão salarial, vagamente validadas por um modelo fictício de avaliação do desempenho?

3. Como seria um “paradigma” ideal?

Seria um paradigma em que as pressões orçamentais seriam apenas as indispensáveis para exigirem rigor e racionalidade nas opções de gestão administrativa e pedagógica, não se tornando o centro das preocupações e o vector essencial das reformas introduzidas.

Seria um paradigma em que os “actores” não o seriam no sentido teatral e dramático do termo, mas sim no de parceiros em, busca de soluções para além das conveniências conjunturais particulares.

Seria um paradigma no qual a oferta pública e privada se conjugariam de forma harmoniosa, numa competição saudável e sem truques, permitindo a coexistência de alternativas reais e não meramente cosméticas. Em que o sector público não estivesse sujeito a contínuas reformas e a uma permanente instabilidade de funcionamento, desde as regras de recrutamento de pessoal até À estruturação do currículo. E em que o sector privado se assumisse enquanto tal e não como mero cliente dos subsídios e apoios estatais.

Seria um paradigma com um funcionamento transparente, desde as questões ético-profissionais até à divulgação de toda a informação indispensável para que as famílias, os alunos, os professores e todos os outros interessados pudessem tomar decisões e fazer escolhas fundamentadas.

Seria um paradigma em que as escolas não funcionassem como uma espécie de pronto-socorro destinado a resolver situações sociais problemáticas e a assegurar às crianças e jovens quase tudo o que a sociedade envolvente não consegue.

Seria um paradigma em que a “autonomia” e a “abertura á comunidade” não fossem conceitos legislados e meramente cenográficos, em que por comunidade se entendesse a comunidade educativa num sentido de proximidade e não de jogo de influências locais.

Seria um paradigma em que a liberdade de escolha poderia existir, com a devida regulação, sem o receio de vir a ser usada em proveito dos mais fortes e detrimento dos mais fracos, acentuando clivagens pré-existentes.

Seria um paradigma que funcionasse de acordo com a sua própria lógica e não de acordo com calendários político-eleitorais ou como campo de confronto entre trincheiras ideológicas incapazes de dialogar e encontrar soluções técnicas eficazes para ultrapassar os bloqueios há muito diagnosticados.