Terça-feira, 23 de Outubro, 2012


Gary Clark Jr., Bright Lights

Era para escrever sobre a forma como a rede escolar regrediu para níveis de há um século atrás quando a população era de menos de 6 milhões de habitantes, com uma larga maioria de analfabetos e não frequentadores das salas de aula.

Mas…  acabei por optar mais pelo factor humano.

De forma corporativa, claro,  como já se sabe que serei acusado.

Mas é incontornável.

Porque é difícil fazer reformas com falta de meios materiais e técnicos, mas é reconhecidamente impossível fazê-las sem meios humanos adequados, motivados, disponíveis para apostarem em novas experiências, métodos, o que seja.

E neste momento a confiança é nula da parte dos professores em relação à tutela. E não só.

E a verdade é que, ainda mais do que na altura do confronto aberto com os governos de Sócrates e em especial quando Maria de Lurdes Rodrigues era ministra, os docentes atingiram um estado de profundo desânimo e divórcio em relação à tutela e ao que dela emana, ressalvando alguns nichos de irredutíveis fiéis em algumas direcções, em grupos de esperançosos na ADD para atingirem o mirífico 10º escalão (é vê-los já a prepararem grelhas e materiais de forma enjoativamente pró-activa…) e, eventualmente, em outros mini-grupos de crentes, já não falando nos que acreditam que a vinculação extraordinária poderá trazer alguma tábua de salvação em relação ao desemprego.

Mas… a larga maioria deixou de acreditar – ou nunca acreditou – que Nuno Crato possa protagonizar alguma significativa inversão da atitude que há muitos anos caracteriza o comportamento da governação em relação aos docentes e que é o do esmagamento progressivo e sistemático dos seus horizontes de progressão na carreira. Desde a invenção dos titulares ao actual modelo de pseudo-avaliação do desempenho que mantém as quotas, passando pelos sucessivos congelamentos. o objectivo básico foi cortar as hipóteses de progressão salarial dos docentes, a coberto de argumentos sobre a avaliação do mérito, ao mesmo tempo que se recorreu a todo o tipo de métodos abusivos, para legais ou mesmo ilegais, para reduzirem os seus rendimentos, alegando um interesse nacional que não se aplica em tantas outras paragens.

A situação actual alia o desemprego da larga maioria dos candidatos à profissão ao total desrespeito das regras antes estabelecidas para a aposentação, que vão sendo sucessivamente alteradas, enquanto os que permanecem a meio do caminho se apercebem que ai permanecerão longamente, sem sequer ter qualquer garantia de um posto de trabalho estável que os motive para um trabalho em continuidade, enquanto a sua carga horária de trabalho aumentou de forma significativa.

Fazer mais com menos já os professores fazem há muito e quem se destacou por considerar que essa era uma verdade, agora desmente-se e faz pior do que aquilo que criticava, não parecendo perceber que o colapso que só o sentido ético de muitos vai adiando, está prestes a acontecer.

Não vale a pena elaborar teorizações muito elaboradas. Nas escolas, nas salas de professores, impera o desânimo, o desalento e a desafeição pelos actores que desrespeitam e desbaratam há anos a confiança que os professores têm necessidade de sentir em quem tem como dever respeitá-los e mobilizá-los para um melhor desempenho.

O ministério insiste, embora com uma cosmética retórica delicodoce, na erosão das condições laborais dos professores, no corte dos seus horizontes de carreira e na sua crescente proletarização, numa combinação que desincentiva de forma activa e agressiva qualquer aposta, para além de imperativos individuais, numa profissionalidade que se sabe não ser recompensada.

Os mais experientes estão cansados, desiludidos, zangados. Os mais novos sabem que a profissão se tornou mal querida dos decisores políticos e que os que estão no meio olham em redor e sentem-se num completo deserto, onde as solidariedades estão quase todas quebradas, onde a atomização dos esforços substituiu qualquer esperança de trabalho colaborativo e o salve-se quem puder, como puder é a compreensível regra de sobrevivência.

Restam pinceladas de brio, consciência, a nível individual ou de pequenos grupos de proximidade.

A confiança perdeu-se, acredito já que de forma irremediável, em todos os actores, presentes ou futuros.

Isto pode parecer lamúria, pieguice, suscitar críticas por parte de alguns instalados que fogem das salas de aula ou mesmo de certos peritos e especialistas de aviário, com as teorias alimentadas em gabinetes com vista sobre os jacarandás, mas é apenas a realidade.

Infelizmente.

E infelizmente, em primeiro lugar, para os alunos e, em segundo, para o próprio país.

Os professores no activo continuam a ser desprezados e isso tanto mais custa quando se acreditou que, pelo menos em pequena escala, algo poderia mudar para melhor.

Não mudou.

Infelizmente.

E a culpa não é – não adianta estar sempre a insinuá-lo – dos professores. Muito menos dos que todos os dias entram nas salas de aula. Pelo menos não terão a maior culpa. Embora tenham alguma.

É que João Duque é, de entre os sobredotados economistas liberais da nossa praça, o que mais cedo adesivou à situação e de forma mais imparável tem revelado toda a sua crença na liberdade do mercado, de escolha e de tudo o mais, desde que possa usar os meios ao seu dispor para retribuir  quem lhe deu e dá espaço.

Pedro Santos Guerreiro só erra numa coisa… nem todos os que servem o Estado se servem do Estado, desrespeitam as regras e envergonham qualquer noção de serviço público. E poder-se-ia confundir o joio com algum trigo que ainda resta e resiste a esta estirpe de liberais da treta.

Só nos saem é Duques

Não, não é o Duque do Sporting (embora, hoje, pudesse ser). É o do ISEG. Quem diria que o presidente, professor, economista, comentador João Duque faz concursos públicos viciados? Diz ele. Nas calmas. Ou como quem trabalha no Estado o Estado não respeita.

(…)

É um concurso à medida. Com uma candura desarmante, o próprio João Duque assumiu-o ao Correio da Manhã: “É possível que o concurso tenha como objectivo publicitar no ‘Expresso'”. O problema é a lei, disse. “Tenho de fazer contratos em abstracto porque essa é a imposição” do Código dos Contratos Públicos. “A lei é feita sem ter em conta a realidade das instituições, daí a necessidade de afunilar critérios”.

Mil maravilhas atropelam-se rapidamente ante os nossos olhos. O presidente de uma universidade pública considera a lei uma maçada. O professor dá a lição de que as regras são para contornar. O economista entende que a concorrência concursal é um entrave à sua escolha directa. O comentador da SIC não percebe o conflito de interesses em que se vê envolvido, por receber remuneração do candidato que favorece no concurso.

Não está em causa a respeitabilidade de João Duque nem a sua competência como presidente do ISEG, que sob a sua gestão tem bons resultados económicos e académicos. Mas está em causa a contradição e o descaramento. Está em causa um Estado cujas regras são ostensivamente violadas por quem o representa.

João Duque só teve o azar de ser apanhado e tem como atenuante a confissão do que, na sua opinião, é mais rebeldia que ilegalidade. Seja. Na verdade, os 160 mil euros são com certeza muito bem investidos na Impresa. A questão é outra: é de que isto é o Estado visto por quem o serve. Os tribunais estão entupidos de processos de concursos viciados.

Neste caso não vale a pena acusar a malta do PSD. Isto é puto-vespa-soares a assinar, embora já tenha feito saber que, se calhar, recua nuns quantos por cento.

Governo quer baixar limite mínimo do subsídio de desemprego em 10%

(…)

Cerca de 150 mil desempregados recebem actualmente o valor mínimo do subsídio de desemprego.

O mesmo documento prevê ainda uma redução de 6% do Rendimento Social de Inserção e de 2,25% do Complemento Solidário para Idosos.

Estamos mesmos entregues ao espírito delirótico dos tea party que acham que quem não trabalha é porque não quer e que se desenrasque.

Dizem que não há dinheiro, mas o que se vê é a continuação dos pagamentos por conta aos grandes interesses das PPP e das rendas aos mono e oligopólios energéticos instalados.

A verdade é que parece que, por estes dias, parece que há um campeonato do tiro ao pobre e enjeitado, a ver quantos mais são abatidos ao efectivo.

Paulo Portas bem pode ensaiar um novo e efémero vanishing act que só com grande falta de memória não levará com uma bela tomatada podre no dia em que tentar fazer nova ronda das feiras & bulhões.

Por exemplo, aquela que está a jogar em Manchester.

… que divide o que é aceitável e não é numa sala de aula, em tempos de escolaridade obrigatória ad eternum, pressão contínua para assegurar o sucesso dos alunos (digam o que disserem, a coisa continua na mesma…) e ostensivo desinteresse de muitos alunos, desde muito novos, numa postura de precoce nihilismo existencial, perfeitamente justificável atendendo ao contexto em que vivem?

Sim, eu sei que é o professor e tal que define as regras na sala de aula, mas todos sabemos a pressão exógena para fazer passar por mau, intolerante, conservador e, quiçá, fascista quem considere que há um conjunto de regras a cumprir e que esse cumprimento nem sempre pode obedecer à doçura do diálogo e à sedução do sorriso.

Respostas da treta – por exemplo com recurso ao que está no novo Estatuto do Aluno, nomeadamente as multas em cuja operacionalidade ninguém verdadeiramente acredita – correm o risco de ir parar ao spam de forma directa, por reacção pavloviana do filtro do WPress.

Ah… não é que o dia tenha sido pior ou diferente do habitual… apenas não sou cego, surdo ou ando muito acima para não saber o que anda por essas escolas.

Minudências.

Os alunos chegam à aula após e, pouco depois, pedem para sair e beber água.

O regulamento não permite.

Os alunos começam a fazer ruídos com a boca, mastigando em seco, porque dizem ter a boca seca. Nenhum argumento de civilidade básica consegue demovê-los de demonstrarem a sua irreverência e, quiçá, rebeldia em relação às rules and regulations.

Qual a solução prática, civilizada, pedagógica, para além de algodão nos ouvidos?

How can teachers help to improve social mobility?

The school improvement movement has worked, says Estelle Morris – now we need to do the same for improving pedagogy.

Social mobility flatlining at best, says government adviser

Alan Milburn says government and universities must encourage more students from poorer backgrounds to take degrees.

Não fazer reformas é matar pela certa

Estamos em cima do limite em que ou há coragem, força, capacidade, vontade e competência para fazer as reformas que já deveriam estar feitas, ou vamos estrondosamente rebentar.

Sabemos que temos institutos, autarquias, universidades, escolas, fundações – ainda, ainda – a mais, e que não nos vamos assim aguentar. Sabemos, vem de muito trás, que face ao conhecimento / cunha, se abrem portas, se arranjam tachos, se fazem jeitos, até lugares se criam, e sabemos que até isso está no limite da imbecilidade.

Várias hipóteses podem ser colocadas.

Uma primeira é continuar a deixar tudo na mesma, até acontecer algum milagre, que não vai acontecer, logo vai tudo implodir. Dentro de pouco. Tudo e todos. Escaparão os que conseguirem fugir, com pé de meia!!!

A segunda, é fazer uma única reforma, por gente capaz e competente, sem muito espalhafato, sem amigos, primos ou conhecidos, que poderá levar 80.000 Pessoas para o desemprego. Fechar, Fechar. Fechar. Horrendo!

A terceira será, sem acabar com hierarquias, sem nunca nivelar tudo por baixo – nem igualar – , diminuir, mas muito, mesmo muito, todos os salários de topo e quadros médios que ganhem o que não é justo ganhar, para que os custos de cada estrutura, logo do global, sejam corrigidos para patamares minimente comportáveis e aceitáveis.

E, hoje, quem tem que ser alvo desses cortes – no topo, nas benesses, nos exageros – por certo não tem alternativa, nem no instituto ao lado, nem na vizinha freguesia, aceitará, ou perde o emprego. Perde tudo. Pronto. Inconstitucional! Não! É duro, mas chega de brincarmos com o fogo. Isso nem se deixa às crianças, e temos demasiadas já adultas!

Claro que o automóvel, o almoço, o jantar, e muito mais pago pelo erário público direta ou indiretamente, para além do salario tao elevado, vão ter que acabar, mas não acabará tudo, e mesmo que o topo finalmente desça um pouco – bastante, estava muito alto – manter-se-á ainda muita gente a trabalhar, num tempo em que o desemprego dispara. E até faz bem guiar carro próprio, ou de quando em quando ir de transporte público, ou até a pé!

E, se mesmo assim cortes mais houvesse justamente a ter que fazer, seria melhor desempregar, – nunca, nunca – os 80.000 ou mais, mas alguns com promessa garantida Europeia e obedecida cegamente por cá, de terem apoio, imediato e durante tempo achado justo e necessário. Novas formas de encarar, pequenos/grandes problemas, mas com muita transparência!!!!

Estamos a falar de Pessoas, mas chega de tantos terem tanto e outros estarem quase no limite da não sobrevivência. Haja vergonha! Haja seriedade, cada um que olhe para si e não esqueça o vizinho.

E sem igualdades estúpidas – isso não existe!- , se for a ser bem conduzido pelo motorista pago pelo Erário Público num grande carrão, olhe pela janela e veja gente, lá fora com fome!! Não lhe dói? Devia. Não faça que não vê! Não é de dar esmola, é de reformar, cortando em si o que demasiado tem!

Talvez fosse agora de os deputados reverem em baixa não o seu numero, mas os seus salários, baixar, significativamente, remunerações, era no mínimo um exemplo, de quem diz estar representar o Povo. Talvez seja inconstitucional, mas por certo É Humano, e dá para mais terem trabalho! Ou não?

Rebentemos todos juntos??

Augusto Küttner de Magalhães

Outubro 2012

… e confesso um inegável ciúme socio-financeiro.

Aquela dos 29 milhões para o MEC, para pagar estudos e pareceres em 2 anos, ainda não se me descolou…

É que eu pensava que os especialistas, peritos, adjuntos, consultores e corredores já tinham tudo estudado e sabido.

E que, em nome do interesse nacional, ofereceriam a sua sapiência não exigindo estipêndio.

Por patriotismo e para vincar a diferença em relação aos estudos tipo-OCDE, isczé e outras capuchadas.