Domingo, 14 de Outubro, 2012


Alanis Morissette, Guardian

Comentário

 O título do artigo da “Atlantic Magazine” é prometedor, “Why kids should grade teachers”. Um título assim garante, de imediato, elevadas doses de salivação pavloviana: os professores a serem avaliados… pelos alunos. Parece saído de uma peça do Barroco, quando tanto se cultivou a temática do “mundo ao contrário”. E os níveis de salivação aumentam quando, numa sociedade (felizmente!) alfabetizada, todos passaram pela escola, pelo que se vai constatando que todos se sentem habilitados a emitir opiniões com abalizada e, por vezes, pretensa, assertividade.

O artigo revela o número crescente de escolas americanas que estão a implementar inquéritos a alunos para avaliarem o desempenho dos seus professores, uma experiência que se iniciou há uma década, mas que estará a conhecer, presentemente, um grande interesse. A premissa é simples: quem melhor que os alunos para avaliar os professores, quando é com eles que passam a maior parte do seu tempo? Premissa simples e indesmentível. Como professora, sinto-me avaliada diariamente. Aliás, nesta primeira fase do arranque do ano letivo, e com turmas novas, como é o caso deste ano (tenho cinco turmas novas) tenho sempre presente que a avaliação inicial que os alunos farão de mim, e das minhas aulas, será determinante para o resto do período escolar. Dessa avaliação, informal, intuitiva, dependerá muita da tranquilidade e produtividade das minhas aulas. Esta avaliação informal é relevante para a criação de um bom ambiente de aprendizagem, mas até que ponto deve ser determinante para a avaliação formal de um professor, a ponto de ser incluída no seu processo de avaliação, determinando a sua progressão e, até, a manutenção do seu contrato? Segundo os estudos realizados com base nestes inquéritos, as respostas dos alunos são bastantes fiáveis, coerentes entre si. Não o duvido: tenho já feito avaliações desse tipo com os alunos, tanto no que diz respeito à sua autoavaliação como à avaliação das minhas aulas e, na grande maioria, as suas opiniões não são muito distintas das que eu esperaria. Mas até que ponto, assumindo o aluno, formalmente, este papel de avaliador, este papel não se converterá num fator pernicioso no próprio processo que se pretende avaliar? Um professor exigente, preocupado em preparar os alunos para os exigentes e obrigatórios exames nacionais (uma bitola de avaliação externa que não existe nos Estados Unidos), pelo que as notas de frequência nem sempre são muito altas, não se sentirá tentado a inflacioná-las para não desagradar os alunos? Até que ponto o aluno, tendo conhecimento do “poder” daquele inquérito não se sentirá tentado a usá-lo para exercer pressão? Se os pais (e a comparação é extrema, pelos estreitos laços afetivos presentes) corressem riscos de perder os filhos por lhes exigirem que fossem cedo para a cama, por os proibirem de ver demasiada televisão, por não os deixarem sair à noite sempre que querem, por lhes tirarem a mesada porque estão a ter más notas, por os obrigarem a comer a sopa, fruta, legumes… não se sentiriam pressionados? E essa pressão iria contribuir para o aumento da qualidade da sua ação, tal como o estudo sugere? “The hope was that a teacher would improve through a combination of pressure and feedback—or get replaced by someone better.”

Aliás, face a uma questão do tipo “Esta aula parece uma família feliz?” a minha reação teria sido a mesma da aluna, Nubia, que “franziu as sobrancelhas. Isto era alguma brincadeira?”. É inquestionável que um bom ambiente na sala de aula é fundamental, mas esta noção de “felicidade” é tão variável quanto há areia no deserto. E não depende apenas do professor. O professor deseja tanto (ou mais…) quanto os alunos que o espaço da sala de aula seja um local aprazível, de respeito mútuo, de trabalho sobre o conhecimento. O professor não quer exercer autoridade, disciplina. Não deveria ter necessidade de o fazer. Qual dos pais que me lê não preferiria ter uma refeição tranquila, em que os miúdos comem tudo o que é importante para eles, em que se conversa, num ambiente de boa-disposição, a ter que levantar a voz, zangar-se, ouvir as birras contra as ervilhas ou as pegas entre irmãos? As caraterísticas dos alunos, a sua educação, as suas expetativas, as suas frustrações, também determinam esse melhor ou pior ambiente de aula. E sempre que um professor tem que exercer autoridade para impor disciplina, mesmo sendo hábil em fazê-lo, é um momento da aula, e da “felicidade”, que se perdem. E vai se avaliado por ter de o fazer?

Afinal, o que se pretende com esta avaliação por inquérito? Diz o artigo que “education reformers worldwide have been obsessed with teaching quality”. Qualidade. E há, de facto, professores conflituosos, do ponto de vista relacional, e incompetentes, do ponto de vista científico que nada contribuem para a qualidade do ensino. Mas esses não precisam de um inquérito a alunos para serem identificados/avaliados. Toda a comunidade escolar os conhece: haja meios de atuação, nesses casos. Mas, em nome dessa qualidade, introduzir mecanismos que têm todo o potencial para a virem a comprometer?

Pretendem qualidade? Então valorizem, de facto, a Educação, a Escola e os seus intervenientes. Não nos deixem, a alunos e professores, à deriva de experiências educativas que mudam anualmente. E de há muitos, demasiados, anos para cá. Arrumem a casa, concertem esforços, pensem numa política educativa de fundo, suprapartidária, melhorem a qualidade da vida das famílias… e depois venham-me falar de inquéritos e da felicidade em estudar para testes e exames, sem as perspetivas de desemprego ou de emigração ao virar da esquina de um curso universitário.

Fátima Inácio Gomes

Professora da Escola Secundária de Barcelos

… quando o MEC finalmente disponibiliza dados sobre o contexto familiar e socio-económico dos alunos das escolas públicas, depois de tantos pedidos nesse sentido e no de uma desejável transparência, ficamos sem ter essas informações do lado do privado, impedindo uma saudável comparação?

Assim como sobre quem é privado e quem é público-privado?

Alguma coisa a esconder?

… nascidos do apelido dos pais e do “de” das mães.

Quase sempre o pedigree recebeu um pouco de verniz lá fora, para legitimar.

O Olhar Mais Puro

O que faz um “bom” professor ou um professor “eficaz” é muito diferente conforme a perspectiva adoptada pelos investigadores e especialistas em Educação e pode ser um problema quase insolúvel quando se tentam conciliar todas as variáveis em que esses investigadores segmentam a questão em busca de uma objectividade tão alcançável quanto a linha do horizonte.

Mas aos alunos é fácil indicar aqueles que consideram ser os melhores professores. E é tanto mais fácil quanto menos foram condicionados por preconceitos. Porque o seu é o olhar mais puro sobre o que se passa numa sala de aula.

E os parâmetros são simples: bom ambiente na sala de aula com base em regras claras e funcionais, que propiciem o trabalho e uma dose moderada de descontracção. Ao contrário do que por vezes o senso comum validado por preconceitos teóricos afirma, para os alunos o bom professor não é o chamado “professor porreiro” que não mantém a ordem na sua sala, deixando cada um fazer o que lhe interessa, num processo de descoberta sem um sentido claro. O bom professor, aos olhos dos alunos, quando se expressam de forma sincera, é o professor que assume por completo a sua função, sem receio de ser disciplinador quando é necessário, não confundindo afectos com permissividade. E é essencial que a sua acção seja vista como justa, transparente e equitativa.

Dito isto, será a avaliação pelos alunos o melhor método para avaliar um professor? Só o é até ao ponto em que os alunos têm competência para o avaliar pois, por exemplo em termos científicos, eles não têm os conhecimentos para o fazer. A avaliação pelos alunos pode ser uma parte da avaliação dos professores, mas não mais do que isso. E mesmo assim é algo muito polémico, que deve ser conduzido de forma prudente e com mecanismos de controlo da sua fiabilidade. E a que os professores deveriam poder aderir de forma voluntária e não imposta.

Resumindo: a avaliação pelos alunos é algo que aceitaria de bom grado em termos pessoais mas que tenho dificuldades em aceitar como método generalizado na avaliação dos professores, no momento presente, em Portugal, sem um longo trabalho de preparação.

foi com muitos sobreiros, pseudotsugas e cedros; ainda meteu quatro liquidambares, duas bétulas, três azevinhos e um carvalho – mais dois maracujás para experimentar, dois physalis e uma pequena moita de hortelã-pimenta.

Manifestite.

  • Der Terrorist:

O sentido das palavras

  • Provas de Contacto:

“ABUSO DE CONFIANÇA” SIGNIFICA “GARGANTA FUNDA”? (na acepção-Watergate e não na acepção-Gerard Damiano, entenda-se)

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