O CASO RELVAS, BADAJOZ E BOLONHA

Num  oportuno e contundente comentário de António Duarte no post aqui publicado (10/10/2012),  intitulado “O Governo está ‘numa luta constante’ para conter despesa’, segundo Miguel Relvas”, é posta a seguinte questão: “E não se podia inventar uma cantiga do género, ó relvas, ó relvas, Badajoz à vista?”.

Como pouca ou nenhuma habilidade para letrista não me candidato para tal, contentando-me com um post meu publicado no blogue  “De rerum natura”, intitulado “Ó (R)ELVAS, Ó (R)ELVAS, BOLONHA À VISTA” (07/07/2012)”, de que transcrevo excertos:

“ Tempos houve em que o acesso ao ensino superior era feito através de um exame de aptidão ou de uma elevada classificação do exame liceal que o dispensava. De lá para cá, esse acesso passou a fazer-se através do facilitismo das “Novas Oportunidades” ou de um caricato “Exame de Acesso ao Ensino Superior para maiores de 23 anos”. Sem mais comentários, por desnecessários, muito me causa confusão o facto de governantes e deputados, etc., eles próprios, acharem menos dignos os cargos que desempenham a ponto de os desejarem ornados de licenciaturas de três ao pataco numa altura em que o ensino superior se tornou numa espécie de mercearia que vende títulos académicos ao quilo ou mesmo ao grama.

Mas nada disto nos devia espantar “num país onde a inteligência é um capital inútil e onde o único capital deveras produtivo é a falta de vergonha e a falta de escrúpulos” (Manuel Laranjeira, “O Norte”, 1908). O que nos devia espantar, isso sim, a ser verdade a licenciatura de Miguel Relvas, aliás como muitas outras quejandas, é não serem tomadas medidas para as anular de imediato. Entretanto, diplomados com cursos superiores de créditos firmados e acima de qualquer mácula têm que se contentar com empregos de caixas de supermercados, levando a concluir ser este um trabalho mais exigente sob o ponto de vista deformação académica do que cargos políticos ao mais elevado nível.

Ainda não se sabia (e, consequentemente, eu não sabia, outro tanto, por me faltarem dotes de adivinhação só ao alcance de cartomantes ou bruxos) que a procissão ia no adro (…) de um ensino superior de ingresso que raia as fronteiras do escândalo  e em que, o que é mais estranho, com a possibilidade de lá sair, num ai, com um diploma que diploma a ignorância.

(…) Nada, portanto, como encaixar as peças de um mesmo puzzle do facilitismo em que se transformou o próprio ensino superior num país, como escreveu o falecido António José Saraiva – no artigo “Para que serve a Universidade Portuguesa”, “Diário de Notícias” (28/09/1979) -, uma referência de destaque no panorama cultural, em que “a Universidade tem um grande, um indispensável papel na nossa vida nacional: passar diplomas. É ela que fabrica os bacharéis e os doutores. Não ensina, não investiga, mas como podia existir o País sem ela? É indispensável para desenvolver o verbalismo, o formalismo, a incapacidade de ‘fazer’ e de tomar iniciativas que caracteriza o nosso pessoal dirigente. Quem, se não ela, produziria o conselheiro Acácio, ‘bacharel’ como toda a gente’”?

Durante tempos, pensei que esta mordaz crítica não passava de um exagero utilizado e ampliado para criticar usos e costumes duvidosos, mas não tão duvidosos quanto isso! Mas com a adopção do “Processo de Bolonha”, neste tradicional cantinho europeu, a língua de Shakespeare – veículo de entendimento entre países dos cinco continentes – seria abastardada pela adopção megalómana do grau de licenciado para o 1.º ciclo de estudos superiores como que a modos da força da tradução para português da palavra inglesa “bachelor”. E isto, depois de inúmeras hesitações e consultas a meio mundo que se manifestaram a favor da nomenclatura de bacharel, como foi o caso de nove ordens profissionais que participaram no Seminário “Reflexos da Declaração de Bolonha”, realizado em Coimbra (12-13 /Novembro/2004). Fiquei agora a saber, em Portugal tudo acontece e nada acontece por acaso!”

E isto acontece por estarmos num país em que a relva daninha cresce a olhos vistos sem que o Governo se aperceba (ou, pior do que isso, se queira aperceber) que, para a sabedoria milenária de  Confúcio, ao defender a moralidade pessoal e governamental,   “não são as ervas daninhas que afogam a boa semente, e sim a negligência do lavrador”.

Rui Baptista