Quarta-feira, 10 de Outubro, 2012


The Clash, Clampdown

Professores vão ensinar educação para o desenvolvimento

Ainda se fosse para o sub… estamos todos em pós-doc…

… no documento que divulguei mais abaixo. Vi o caso dos militares, do SNS, de doutorados e investigadores, mas confesso que como estava quase a adormecer de tédio posso ter falhado algum pormenor.

Militares, Saúde e Educação terão excepções no corte de contratados

Já o secretário de Estado fala de muitas excepções e especificidades, mas não sabe os números exactos. Deve ser um problema de consolidação.

O CASO RELVAS, BADAJOZ E BOLONHA

Num  oportuno e contundente comentário de António Duarte no post aqui publicado (10/10/2012),  intitulado “O Governo está ‘numa luta constante’ para conter despesa’, segundo Miguel Relvas”, é posta a seguinte questão: “E não se podia inventar uma cantiga do género, ó relvas, ó relvas, Badajoz à vista?”.

Como pouca ou nenhuma habilidade para letrista não me candidato para tal, contentando-me com um post meu publicado no blogue  “De rerum natura”, intitulado “Ó (R)ELVAS, Ó (R)ELVAS, BOLONHA À VISTA” (07/07/2012)”, de que transcrevo excertos:

“ Tempos houve em que o acesso ao ensino superior era feito através de um exame de aptidão ou de uma elevada classificação do exame liceal que o dispensava. De lá para cá, esse acesso passou a fazer-se através do facilitismo das “Novas Oportunidades” ou de um caricato “Exame de Acesso ao Ensino Superior para maiores de 23 anos”. Sem mais comentários, por desnecessários, muito me causa confusão o facto de governantes e deputados, etc., eles próprios, acharem menos dignos os cargos que desempenham a ponto de os desejarem ornados de licenciaturas de três ao pataco numa altura em que o ensino superior se tornou numa espécie de mercearia que vende títulos académicos ao quilo ou mesmo ao grama.

Mas nada disto nos devia espantar “num país onde a inteligência é um capital inútil e onde o único capital deveras produtivo é a falta de vergonha e a falta de escrúpulos” (Manuel Laranjeira, “O Norte”, 1908). O que nos devia espantar, isso sim, a ser verdade a licenciatura de Miguel Relvas, aliás como muitas outras quejandas, é não serem tomadas medidas para as anular de imediato. Entretanto, diplomados com cursos superiores de créditos firmados e acima de qualquer mácula têm que se contentar com empregos de caixas de supermercados, levando a concluir ser este um trabalho mais exigente sob o ponto de vista deformação académica do que cargos políticos ao mais elevado nível.

Ainda não se sabia (e, consequentemente, eu não sabia, outro tanto, por me faltarem dotes de adivinhação só ao alcance de cartomantes ou bruxos) que a procissão ia no adro (…) de um ensino superior de ingresso que raia as fronteiras do escândalo  e em que, o que é mais estranho, com a possibilidade de lá sair, num ai, com um diploma que diploma a ignorância.

(…) Nada, portanto, como encaixar as peças de um mesmo puzzle do facilitismo em que se transformou o próprio ensino superior num país, como escreveu o falecido António José Saraiva – no artigo “Para que serve a Universidade Portuguesa”, “Diário de Notícias” (28/09/1979) -, uma referência de destaque no panorama cultural, em que “a Universidade tem um grande, um indispensável papel na nossa vida nacional: passar diplomas. É ela que fabrica os bacharéis e os doutores. Não ensina, não investiga, mas como podia existir o País sem ela? É indispensável para desenvolver o verbalismo, o formalismo, a incapacidade de ‘fazer’ e de tomar iniciativas que caracteriza o nosso pessoal dirigente. Quem, se não ela, produziria o conselheiro Acácio, ‘bacharel’ como toda a gente’”?

Durante tempos, pensei que esta mordaz crítica não passava de um exagero utilizado e ampliado para criticar usos e costumes duvidosos, mas não tão duvidosos quanto isso! Mas com a adopção do “Processo de Bolonha”, neste tradicional cantinho europeu, a língua de Shakespeare – veículo de entendimento entre países dos cinco continentes – seria abastardada pela adopção megalómana do grau de licenciado para o 1.º ciclo de estudos superiores como que a modos da força da tradução para português da palavra inglesa “bachelor”. E isto, depois de inúmeras hesitações e consultas a meio mundo que se manifestaram a favor da nomenclatura de bacharel, como foi o caso de nove ordens profissionais que participaram no Seminário “Reflexos da Declaração de Bolonha”, realizado em Coimbra (12-13 /Novembro/2004). Fiquei agora a saber, em Portugal tudo acontece e nada acontece por acaso!”

E isto acontece por estarmos num país em que a relva daninha cresce a olhos vistos sem que o Governo se aperceba (ou, pior do que isso, se queira aperceber) que, para a sabedoria milenária de  Confúcio, ao defender a moralidade pessoal e governamental,   “não são as ervas daninhas que afogam a boa semente, e sim a negligência do lavrador”.

Rui Baptista

… já repararam que se voltou ao tempo em que os créditos das acções em Tapetes de Arraiolos ou em Migas e Pézinhos de Coentrada (laike, laike, laike) podem contar para a progressão (quando chegar o degelo…) em qualquer grupo disciplinar?

… é tão pornográfica que nem quero comentar, a menos que quebre a regra dos palavrões em posts.

Que saudades dos políticos liberais que criticavam o esbulho fiscal.

Não receiam nada disto? A Margaret não aguentou muito tempo…

Poema em linha reta

Nunca conheci quem tivesse levado porrada.
Todos os meus conhecidos têm sido campeões em tudo.

E eu, tantas vezes reles, tantas vezes porco, tantas vezes vil,
Eu tantas vezes irrespondivelmente parasita,
Indesculpavelmente sujo,
Eu, que tantas vezes não tenho tido paciência para tomar banho,
Eu, que tantas vezes tenho sido ridículo, absurdo,
Que tenho enrolado os pés publicamente nos tapetes das etiquetas,
Que tenho sido grotesco, mesquinho, submisso e arrogante,
Que tenho sofrido enxovalhos e calado,
Que quando não tenho calado, tenho sido mais ridículo ainda;
Eu, que tenho sido cómico às criadas de hotel,
Eu, que tenho sentido o piscar de olhos dos moços de fretes,
Eu, que tenho feito vergonhas financeiras, pedido emprestado sem pagar,
Eu, que, quando a hora do soco surgiu, me tenho agachado
Para fora da possibilidade do soco;
Eu, que tenho sofrido a angústia das pequenas coisas ridículas,
Eu verifico que não tenho par nisto tudo neste mundo.

Toda a gente que eu conheço e que fala comigo
Nunca teve um ato ridículo, nunca sofreu enxovalho,
Nunca foi senão príncipe – todos eles príncipes – na vida…

Quem me dera ouvir de alguém a voz humana
Que confessasse não um pecado, mas uma infâmia;
Que contasse, não uma violência, mas uma cobardia!
Não, são todos o Ideal, se os oiço e me falam.
Quem há neste largo mundo que me confesse que uma vez foi vil?
Ó príncipes, meus irmãos,

Arre, estou farto de semideuses!
Onde é que há gente no mundo?

Então sou só eu que é vil e errôneo nesta terra?

Poderão as mulheres não os terem amado,
Podem ter sido traídos – mas ridículos nunca!
E eu, que tenho sido ridículo sem ter sido traído,
Como posso eu falar com os meus superiores sem titubear?
Eu, que venho sido vil, literalmente vil,
Vil no sentido mesquinho e infame da vileza.

Álvaro de Campos

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