… não é aceitável, por muita que seja a crise, até porque os mandantes não dão o exemplo, criando regimes de excepção para amigos e apaniguados.

O facto de existir desemprego e subemprego não justifica que se ataquem sistematicamente as condições laborais de quem está empregado e se façam ameaças ou insinuações quanto aos privilégios de quem tem emprego em relação a todos aqueles que o não têm. O facto de alguém estar na disposição de aceitar limpar latrinas com uma escova de dentes em troca de uma esmola não é dignificante para ninguém, muito menos para quem usa isso como argumento.

A apagada e vil tristeza é o conformismo para com o nivelamento pelo mais rasteiro. Até porque esse argumento se impregna na mentalidade, em virtude do seu efeito em cascata, mediante a reprodução pelos ecos acríticos.

O objectivo de qualquer sociedade vagamente justa – a e dos políticos que a devem servir sem se servirem – é o de elevar a situação de quem está pior e não de amesquinhar de quem está remediado, enquanto se deixam incólumes os chamados grandes interesses.

Se um relvas no governo (assim com letra pequena) é uma ofensa à Academia, um borges pago à consulta é uma ofensa à própria Sociedade e a todos aqueles que, trabalhando, se vêem sistematicamente ofendidos na sua dignidade profissional e mesmo pessoal, sendo-lhes regateados os salários ou os apoios sociais.

Se Sócrates e a sua clique alargaram desmesuradamente o buraco, Passos Coelho e os seus estão a usar isso para justificar que a maioria lá permaneça. Não é aceitável, repito, quando o exemplo que vem de cima é apenas o da mediocridade intelectual.

Eu garanto que ouvi dizer que era o contrário que se pretendia.