Quinta-feira, 20 de Setembro, 2012


Stranglers, La Folie

[aqui]

Será porque a filha de um dos maiores amigos do meu pai, mais ou menos da minha idade, era autista e, em férias conjuntas, teria 8-10-12 anos, vi a enorme dificuldade e paciência que eram necessárias para lidar com a situação e com as suas crises?

Será porque cresci paredes-meias com um rapaz com trissomia 21, bonacheirão mas completamente dependente dos familiares, que ficava ali no banco junto à soleira da casinha chã dos pais, ao lado do meu prédio (quem conheça as minhas origens já reconheceu certamente a descrição do Lico), quase sempre sorridente?

Será porque fiquei, na maioria dos casos, em classes e turmas povoadas por precoces misfits, restos sociais na periferia das curtas elites locais?

Será por tudo isso que desenvolvi um preconceito social forte em relação a quem esquece as suas origens (defeito bem mais grave do que nunca delas se conseguir libertar, ficando paralisado) e trata os descamisados como gente menor?

Será por isso que embirro com os discursos sobre a pobreza, como se fosse algo que se observa cientificamente, sobre a reprodução social, menorizando implicitamente quem se diz querer promover, ou a inclusão, em especial quando não se percebe que igualdade e a diferença têm cada uma o seu lugar?

Será por isso que raramente desisto de alunos que sinto serem encarados como casos perdidos, a menos que seja obrigado a fazê-lo por causa de inseguranças de adultos pouco profissionais, que se sentem ameaçados por formas de estar menos subservientes?

Será por isso que ainda me choca ouvir gente que se acha sensível largar um não quero esse deficiente na minha sala?

Será por isso que há quem fique incomodado por eu estar em certas reuniões?

Será por isso que não resisto à tentação de fazer um texto que poderia bem passar sem fazer, evitando… coisas?

Claro que todos estes meus preconceitos sociais e mentais são agravados pelo facto de, por diversas origens, saber que se estão a colocar em prática cortes hiper-draconianos aos alunos com NEE, em cima dos que já antes foram feitos nos últimos anos, como se eles fossem a causa (desnecessária) de gastos encarados como sumptuários para um orçamento mais preocupado em pagar juros e compensações a interesses privados mais do que blindados.

Claro que estes meus handicaps e esta minha incapacidade para ver o grande cenário, por sobre o dramatismo dos casos individuais, se agrava quando se encaram alunos que aos 11-12-13 anos não sabem ler, não conseguem relacionar um fonema com a sua representação gráfica, quando o diagnóstico é feito na base dos quadradinhos (cor de laranja, que eu respeito muito o poder que está) recortados à pressa com as letras do alfabeto e algumas sílabas para perceber até que ponto é possível sair da pura oralidade.

Claro que isto faz vir ao de cima o meu feitio belicoso e a tentação adjectivante de considerar vergonhosas, obscenas, asquerosas, as poupanças feitas nesta área da educação.

E por poupanças não falo apenas no dinheiro mas também no investimento humano, profissional, nestes casos, até porque esse desinvestimento profissional, esse deixa andar de quem não deve, acaba por justificar a poupança material daqueles que só querem um pretexto para cortar a régua e esquadro.

De pouco valem – mas alguma coisa valerão – os esforços individuais, mais ou menos isolados, mais ou menos articulados de pequenos grupos de gauleses teimosos, que não se preocupam em ir até às bases de tudo e fazer um trabalho quantas vezes desprezado por quem acha que só a Matemática Pura ou a História Constitucional Europeia são matérias dignas da sua função docente.

Quem preza mais a continuidade deste tipo de trabalho, e fazê-lo com base em algo com algum fundamento, do que passear os cães à hora do almoço ou chilrear teorias sobre as vantagens da hidratação com este calor.

Sim, sou quezilento, preconceituoso e não gosto de deixar passar em claro quem de forma consciente prejudica quem mais precisa. Seja ao nível macro de um poder central cego por teorias estocásticas que transformam as pessoas em variáveis abstractas, seja ao nível micro de pessoas que sacrificam tudo às suas limitações profissionais e de carácter.

  • 7 de Fevereiro de 2011:

PS pede ao líder parlamentar do PSD para ter ‘tino e compostura’

(…)
«Recomendo ao dr. Miguel Macedo um pouco mais de tino e de compostura, porque isto de ter nervos de aço, serenidade e convicções não pode ser apenas uma característica de José Sócrates. Quem está na oposição também tem de ter compostura e serenidade», afirmou o eurodeputado socialista, que assume também as funções de director de campanha da candidatura de José Sócrates a secretário-geral do PS.

Em resposta às acusações feitas pelo líder parlamentar do PSD ao secretário-geral do PS, Capoulas Santos considerou que «o insulto nunca é um bom argumento político, ainda que se compreenda o nervosismo e a desorientação do PSD».

  • 20 de Setembro de 2012:

Capoulas Santos recomenda «juízo» ao PSD e CDS

O eurodeputado socialista Capoulas Santos recomenda «tino» e «juízo» ao PSD e CDS para que a coligação possa cumprir o mandato que recebeu dos portugueses para governar até 2015.
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Quanto ao essencial, nota-se uma evidente preocupação do PS em manter o Governo em funções…

Outro liberal que podia pirar-se de braço dado com o Nogueira Leite. Só se estragava um meio de transporte.

António Mexia: Descida da TSU pode baixar preço da luz

 

Passos ponderou demitir-se após ouvir Portas

Primeiro-ministro considerou ter ficado politicamente fragilizado

O Paulinho espirra e ele fica fragilizado, centenas de milhar protestam na rua e ele nem pesataneja?

Duplica o número de casais desempregados

Casal funcionários públicos perde 7500 €

Isto é a pensar no meio da tabela… Sei porque fiz as contas e bate certo cá em casa.

Pensava que o tempo do recurso aos malabarismos estatísticos estava enterrado.

O argumento demográfico foi martelado. Aqui no blogue apareceu-me alguém a ofender e chamar mentiroso apenas porque eu demonstrei que a tese demográfica não podia explicar uma quebra de 14% dos alunos.

Acho que agora fica claro que o MEC recorreu aos alunos das NO para, de forma algo ardilosa, induzir em erro a opinião pública sobre o número de alunos em permanência nas aulas para as quais foi aberto concurso para docentes.

E esqueceu-se de acrescentar que no mesmo período se aposentaram mais de 10% dos professores dos quadros.

Resta saber se Nuno Crato o fez de forma consciente, se achou por bem acreditar nos números que lhe tenham fornecido. Em qualquer cos casos, deveria existir alguma responsabilização…

Redução de alunos à custa de adultos

O ministro da Educação e Ciência, Nuno Crato, reconheceu ontem que contabilizou os adultos das Novas Oportunidades (NO) quando, em entrevista à TVI, falou numa redução de “200 mil alunos nos últimos três anos”, argumento utilizado para justificar a redução de professores contratados em cerca de 5 mil.

“Contámos com os adultos. Houve um ‘boom’ nas NO e em seguida as pessoas terminaram a sua formação e saíram do sistema”, disse o ministro na Assembleia da República, admitindo que a quebra da natalidade “não explica tudo”, sendo porém “o pano de fundo”. A quebra nas NO levou a uma redução total de cerca de 120 mil alunos de 2010/11 para 2011/12, segundo números que a tutela forneceu recentemente ao CM, embora os valores do último ano sejam provisórios.

Dizem-me que há histórias maravilhosas de tão… Os documentos orientadores estão aqui.

Nuno Crato no parlamento: o ano lectivo começou com normalidade, os horários zero são muito semelhantes ao ano passado, não está em causa nenhum estudo de regime de mobilidade especial de professores. Consenso no elogio ao esforço dos directores.

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A desdramatização é uma excelente táctica. Esperemos que não apenas de adormecimento

Declaro-me político para nunca ser preso. A bem da… dos políticos.