São 4 páginas no Sol de hoje, sempre um risco quando se trata de falar de um assunto que se cada vez mais se percebe dominar pela epiderme dos preconceitos que se apontam aos outros.

Sei que posso falar à vontade, pois o ministro Nuno Crato afirma não ler blogues sobre Educação, por não achar importante e porque não muda de opiniões devido aos comentadores. Só falta dizer que não via o Plano Inclinado em que participava.

(de qualquer modo, espero que não seja católico, pois acho que arriscaria aqui um pecadilho de distorção da verdade porque se não lê, há quem leia e faça recortes…)

Como ia dizendo, 4 páginas é muita conversa, mesmo quando a maior parte do discurso se cola ao conteúdo dos comunicados do MEC. Há espaço para contradições evidentes, preconceitos mal escondidos, alfinetadas mal digeridas, inconsistências várias e a revelação de um conhecimento formal da realidade sobre Educação.

Apesar de dizer que fala cara a cara com professores (é verdade, em ambiente discreto e controlado, longe das idas às escolas que fazia até à ida para o Tagus Park, tendo eu tido o prazer de com ele estar nesse dia na Secundária de Bocage, em Setúbal), o que transparece é que acredita mais nos escritos normativos sobre a Educação do que na sua prática efectiva.

Exemplos: acredita que por redefinir metas curriculares em cima de programas recentemente aprovados se consegue elevar o nível de exigência do trabalho com os alunos e que dar um nome a algo transforma a sua essência (esse poder do Verbo transformar a Matéria tem muito de místico…).

Mas concentremo-nos num ou dois pontos essenciais e mais logo se vê o resto.

Antes de mais uma implícita auto-crítica, quer á sua impreparação técnica, quer ao seu papel anterior de comentador:

É um académico que foi chamado para uma tarefa de governação. O que é que o surpreendeu mais na governação?

Houve tantas coisas que me surpreenderam… Uma delas foram os preconceitos que existem ainda na sociedade portuguesa e em muitos comentadores sobre tantas coisas.

E não notava isso de fora?

Talvez não fosse tão sensível a isso.

Ou seja, quando estava de fora não era sensível aos preconceitos da sociedade que o envolvia, mesmo quando os partilhava. Claro que, sofrendo-os na pele, custa mais. Os professores entendem isso. Essa dos preconceitos de quem está de fora. E Nuno Crato, colocou-se de fora.

Por outro, percebe-se agora com clareza que Nuno Crato assumia posições que pareciam coerentes em diversos aspectos (alguns dos quais partilho), mas às quais faltava uma sustentação não apenas empírica mas, digamos assim, operacional. Criticando o MEC pela sua dimensão e centralismo, pelo seu peso, quando teve o poder de usar a máquina ou aperfeiçoá-la, acabou perdido nos seus labirintos e ainda hoje não sabe como se livrar dela. Basta ver como as DRE continuam a assumir o papel que sempre tiveram, com reforço dos defeitos e diminuição das qualidades.

Nuno Crato até podia ter boas ideias, no meu escasso entendimento, mas percebe-se que não sabia como colocá-las em prática para além do voluntarismo. <e a equipa que lhe foi escolhida (excepto no Ensino Superior) tem-se revelado uma menos-valia.