Vou ler a entrevista de Nuno Crato ao Sol e tentar perceber se a forma como ela é apresentada pelo jornal se destina a exacerbar a situação de conflito, se é (duvido…) apenas algo profundamente desastrado. Duvido que o tom belicoso da primeira página seja obra e graça apenas da redacção ou direcção.

O tom e a argumentação são muito próximos do habitual em Maria de Lurdes Rodrigues. A aparente confiança na intocabilidade, a arrogância, a provocação. O que corresponde a uma mudança evidente em relação aos primeiros tempos de governação e mesmo a algumas posições públicas relativamente recentes, em Julho e mesmo Agosto.

A argumentação demográfica parece saída de um manual de jota laranjinha liberal, isolando uma variável quantitativa para explicar tudo.

Já a forma como descarta a contestação nas ruas baseia-se numa combinação de factores que avalia (ou a equipa política do Governo por ele) como favorável à finalização do processo de domesticação da classe docente.

Aposta num movimento sindical dividido, entre uma Fenprof acantonada ao seguidismo arménio que caiu em descrédito nas escolas e uma FNE entalada pelo papel de muleta, em que a declaração de alegria dos últimos dias é ridicularizada pelos factos e por esta entrevista. Aposta ainda na fragmentação das alternativas que se tentam criar, agora com plataformas e coisas assim no lugar dos movimentos independentes de 2008-09. Aposta ainda no medo. Medo dos que estão fora de nunca mais terem emprego e dos que estão dentro de perderem o lugar.

Esta é a parte mais indecorosa. A declarada aposta política no medo como arma de dissuasão.

Mas…

Mas as coisas podem mudar, mesmo que lentamente.

Como já disse, mais em off do que em on, o papel a que se prestou a FNE, uma mistificação evidente sobre a hipótese de uma vinculação extraordinária de contratados este ano correu mal e só acirrou os ânimos. E esta entrevista, preparada certamente com antecedência, não vai ajudar nada a que mesmo os moderados e menos adeptos das passeatas pela Avenida comecem a rever a sua atitude.

Maria de Lurdes Rodrigues despertou a imediata aversão e o conflito foi permanente. É verdade que resistiu.

Nuno Crato beneficiou de um longo estado de positiva expectativa. Foi, mantenho-o, uma excelente escolha para que os professores sentissem que no MEC estaria alguém que os compreendesse, que denunciou a instrumentalização política da Educação até 2010 e que criticou com justeza aquilo que agora faz. Até nisso foi uma excelente escolha, pois parece quase mentira vê-lo a fundamentar decisões pedagógicas com médias aritméticas. Sei que muitos achavam que assim iria ser, mas acredite que Nuno Crato conseguisse ir além disso e não se tornasse indistinto daqueles assessores apatetados que pululam no universo dos aparelhos partidário, à cata de lugares em gabinetes.

Provavelmente é tempo de inverter em definitivo a atitude e tratar o actual MEC decididamente como alguém hostil, que preferiu entrincheirar-se no ministério e começa a usar algo parecido ao “perdi os professores, mas ganhei a opinião pública”. Quando se ouve ou lê frases como “os portugueses não iriam entender que…” entrámos nesse domínio.

Vou ler a entrevista toda com cuidado, desmontar aquilo que já me aparece evidente manobra de spin e de provocação gratuita e decidir se, engolindo mais ou menos sapos, é tempo de passar para uma contestação mais clara e radical, para além das vigílias ou romarias com os amigos do costume, exigindo que os representantes profissionais representem os professores e não outros interesses.

E é tempo para, de uma vez por todas, Mário Nogueira e João Dias da Silva decidirem de que lado estão. E se andam apenas em busca de prazeres negociais.

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