É sempre curioso que quem afirma ser contra a instabilidade na Educação acabe por praticá-la com a mesma agilidade e habilidade que os experimentalistas, eles mesmos.

Ao que parece, as metas curriculares apresentadas ontem vão estar em discussão quase até ao fim de Julho e só depois sairão os documentos finais, certamente de meados de Agosto para diante. E vai ser giro levar ali umas semanas, no início do ano lectivo, a empatar, empatar, antes de…

O que é inaceitável, mesmo em disciplinas “novas” como Educação Visual e Educação Tecnológica do 2º ciclo (ou mesmo TIC do 3º na sua nova fórmula) que precisavam saber ao que andariam. Mas ficamos sem perceber se as metas agora definidas, por exemplo, para o 6º ano são para levar muito a sério, visto que os alunos tiveram no 5º ano outra disciplina que tinha metas definidas de outra forma e com base em outros princípios.

Quanto à Língua Portuguesa (agora parece que se vai chamar Português) e à Matemática, estas metas surgem como mais uma peça postiça em edifícios de normativos já de si confusos, complexos e não sei que mais… e fica-se sem saber o valor relativo de tudo o que está em confronto… mas então segue-se o programa, as metas «fortemente recomendadas» ou exactamente o quê? Os exames/provas finais do próximo ano terão como base estas metas, já, mesmo se os professores e alunos não as tiveram como base para o trabalho dos anos anteriores?

No caso da Língua Portuguesa, para um novo admirador do novo programa como eu, estas metas apresentam-se como mais concretas e compreensíveis do que diversas passagens dos documentos anteriores. Só que tudo parece resultar de uma navegação à vista, em que se sucedem pequenas cliques na definição dos princípios estruturantes de uma disciplina que se pretende estruturante mas está há meia dúzia de anos em profunda instabilidade, porque foi tomada de assalto por guerrinhas de facções académicas.

Desde o anúncio da TLEBS, em meados da década anterior, que andamos a navegar ao sabor dos gostos e humores das cliques que mais se conseguem aproximar do poder para/de definir o que é apresentado como orientações para todos. Este episódio é apenas mais um de uma história muito atribulada em torno do ensino da Língua Materna, numa inaceitável sucessão de zigues e zagues, rectas feitas com o acelerador a fundo e contracurvas apertadas, autêntica mistura de montanha russa com casa dos espelhos, onde alunos e professores são cobaias de shôtôras e shôtores que nunca colocaram os pés numa aula do Ensino Básico, ou foram lá de visita para orientar.

Aguarda-se, agora, o que vai acontecer com outras disciplinas… há capacidade para fazer novos programas ou vai-se optar por fazer alinhamento de metas?

No caso da História, que me interessa sobremaneira, estou com curiosidade para perceber que facção vai tomar conta da coisa, em especial no que se refere à História Contemporânea… será um grupinho rosado ligado ao grande guru do bloquismo histórico e do Fascismo em geral para todos ou será um ligado ao ruiramismo revisionista que encontra bichos-papões jacobinos em qualquer aroma de inconformismo? Porque tudo isto tem implicações numa outra área importante que é a da produção de manuais, onde estão cristalizados muitos vícios e rotinas mentais…

Mas quem fala da História Contemporânea, fala do resto da História, em que se confrontam, mais do que visões alternativas, grupos de interesses concorrentes na área de negócio em disputa.

A ver vamos, dizem os cegos perante tanta iluminação que lhes vem de cima…