Há um ou dois dias instalou-se numa caixa de comentários uma discussão em torno da distinção (ou inexistência dela) entre autoritarismo e totalitarismo, enquanto conceitos operatórios para distinguir a natureza de alguns regimes políticos ditatoriais.

Para mim a distinção é natural, surgiu-me como óbvia desde muito cedo quando comecei a estudar um pouco mais a evolução política do século XX, em especial dos movimentos e regimes anti-liberais e anti-democráticos, mesmo quando dotados de simulacros de funcionamento eleitoral ou de debate político.

  • O autoritarismo, numa visão pessoal breve a partir das leituras feitas e não apenas de automatismos ideológicos, é uma forma de impor comportamentos a terceiros a partir do exercício de mecanismos opressivos que eu classificaria como exteriores e que procura, principalmente, obter a adesão, real ou simulada, dos indivíduos a um determinado tipo de comportamentos ou a omissão de outros.
  • Já o totalitarismo entra por esferas mais profundas da imposição dos comportamentos e da destruição, nos indivíduos, da capacidade de resistência interna ao que se lhes pretende impor. Há uma diferença de grau e, em parte, de natureza, no aparato repressivo imposto. Os mecanismos totalitários, mais do que a submissão, visam a aniquilação da capacidade de reacção. A generalidade das distopias ou das denúncias de comportamentos totalitários produzidas na primeira metade do século XX demonstram isso à saciedade, um pouco como muitos dos escritos posteriores de um Philip K. Dick.

Por paradoxal que pareça, pelo excesso do aparato desenvolvido para a opressão e pelo exagero da obediência exigida, o totalitarismo tende a gerar revoltas mais fortes do que o “mero” autoritarismo. As ditaduras autoritárias, por mais suportáveis, podem prolongar-se mais do que as que visam a completa destruição da natureza humana, mesmo se a revolta acarreta maiores perigos.

Tudo isto sobre os aspectos macro para chegar ao ponto dos traços micro dos comportamentos de natureza totalitária no quotidiano. Porque as tendências totalitárias se revelam apenas ao nível da super-estrutura política dos regimes, mas apenas porque ao nível individual das mentalidades há quem tenha esse tipo de pensamento que passa não apenas pela intolerância ao adversário, pela manipulação da realidade, pelo exercício da tentativa de repressão, mas principalmente pelo ódio ao outro, que é diferente de um modo insuportável, que só consegue satisfação na aniquilação psicológica ou física (e não apenas pela submissão externa) daqueles que são percepcionados como perigosamente imprevisíveis e incontroláveis.

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