… agora que já estou por casa e com acesso à entrevista de Paulo Santiago ao Público.

Toda ela me merece imensos reparos pela forma como apresenta um estereótipo da prática docente e pedagógica no nosso país. Não sei onde ele observou aulas, mas certamente foi longe dos meios onde me movo há muito tempo. Ou então, toma o todo por uma das parte que observou. Ou pela única que observou.

A forma como fala da quase ausência de avaliação formativa e de esclarecimento dos alunos sobre as suas dificuldades, dá-me a impressão que é retirada directamente de uma qualquer memória pessoal ou de casos singulares que o impressionaram.

Mas a parte que mais me irritou, por representar o que de pior tem a tendência que defende a Escola como o grande e quase único mecanismo social de combate às desigualdades foi esta:

Isto quer dizer que os alunos que têm maior probabilidade de chumbar são aqueles que advêm de meios mais desfavorecidos e, em Portugal, é preciso ter-se consciência de que quando se reprova um aluno está-se, até certo ponto, a criar um problema de desigualdade social. Por isso, as abordagens pedagógicas da retenção acabam por ser também um meio de exclusão social.

Caro doutor Paulo Santiago, não é a reprovação (seria melhor dizer retenção ou não transição, é mais fofinho) que cria um problema de desigualdade social.

É ao contrário – muitos alunos já chegam à escola Às 8.30 imersos em exclusão social – e é mais complicado do que ler uma versão já digerida do Bourdieu (anos 60-70) ou da Sociologia da Educação inglesa dos anos 50-60.

A realidade é um bocadinho mais complexa. E dramática.

E era bom que os especialistas compartimentados da OCDE entendessem, de uma vez por todas, que a Educação ajuda mas não resolve tudo. Pode ser o elevador social, impulsionar alguma mobilidade social mas, num contexto como o que vivemos, não consegue resolver metade do problema e muito menos com condescendências paternalistas e preconceitos a esmo.

Por muitos estudos e certificados que tenha o pobrezinho não retido, ou é bom no que faz ou então nada consegue, a menos que consiga connections, que é o que safa principalmente os menos desfavorecidos ou mesmo privilegiados. E se é bom, não precisa de não ser retido, naturalmente progride com os padrões que temos.

É que há uma diferença entre o acesso que se consegue ao mercado de trabalho lá no bairro social e o que se consegue acompanhando o pai ao campo de golfe!

O determinismo social, cultural, económico, existe, mas não funciona dessa forma, simplista do chumba-não chumba. Se chumba vai ser dealer, se não chumba vai ser neurocirurgião.

Irra, pá!