Antes de mais fica aqui a dita com alguns pontos assinalados. A verde os pontos que eu contesto mais nas declarações do entrevistado (no fundo é toda a concepção preconceituosa e estereotipada do ensino em Portugal que ele revela que me desgosta) e a castanho a pergunta que acho que merecia uma formulação mais completa. Mas hoje não vai dar para escrever sobre tudo, portanto, fica apenas a parte 1.

Paulo Santiago faz uma série de afirmações que eu gostaria de saber em que se fundamentam, em quantas observações, com que relevância empírica… Por exemplo:

Em Portugal resume-se muito a avaliação dos alunos aos testes e exames e é esse conceito que pomos em causa no nosso relatório. O conceito de avaliação é muito mais vasto do que isso. O objectivo central é o de assegurar que a própria avaliação e os seus resultados sejam utilizados para a melhoria das práticas. Dando indicações aos alunos para poderem melhorar os seus resultados e permitindo ao professor melhorar a sua prática para melhorar os resultados dos seus alunos. Existe uma componente formativa na avaliação que está pouco desenvolvida em Portugal.

(…)

Na sala de aula, através do diálogo com o aluno, permite ao professor identificar quais as práticas que se podem adaptar melhor à aprendizagem de determinados estudantes. Existe uma interacção na própria avaliação através de práticas que passam pela auto-avaliação dos alunos, por estes se avaliarem uns aos outros, por um ensino mais individualizado em algumas circunstâncias. É todo um campo de acção que ainda não é bem entendido em Portugal.

Mas que base empírica tem Paulo Santiago para fazer uma generalização destas?

No fundo, o que ele faz é passar um atestado de menoridade profissional e intelectual à classe docente portuguesa. Isto parece um Valter Lemos II a falar. Eu leio aquilo ali e sinto que me estão a chamar imbecil, ignorante e insensível. E não me venham cá com corporativismos. Há gente que não sabe fazer avaliação formativa? Há! Mas há mais gente que só sabe palrar avaliação formativa e tal e coiso, que o sucesso e tal. A começar por cima.

Deixemo-nos de tretas. A avaliação formativa esteve no centro do discurso pedagógico, legislativo e especializado nos últimos 20 ou mais anos. A maioria dos professores em exercício foi formada (inicialmente ou na profissionalização) com base nestas teses. E a prática tem sido implementada, daí tanta grelha para contextualizar a avaliação, outrora sumativa, com uma série de outros parâmetros.

E a avaliação formativa passava e passa não só pelo feedback dado aos aluno e pelo aconselhamento sobre o que poderá fazer (a Paulo Santiago devem ser estranhas as folhas da avaliação entregues aos encarregados de educação, cheias de cruzes ou avaliações qualitativas), mas também pela avaliação das atitudes em relação à aprendizagem.

E só assim percebo uma avaliação formativa integral.

Só que Paulo Santiago, estranhamente, acha que não. Acha que a avaliação deve ser segmentada em parâmetros… como se não acontecesse já isso. Só que há uma classificação no final e não percebo bem se ele defende que deva, pura e simplesmente, desaparecer.  O que ele não explica é como se conjugariam, por exemplo no 3º ciclo, essas duas avaliações para efeitos de progressão. A menos que a progressão acontecesse sempre… com uma mera indicação do tipo polegar para cima, para baixo ou a meia haste…

Nas escolas portuguesas, combina-se na mesma nota o resultado da aprendizagem e a avaliação dos comportamentos e atitudes dos alunos. Isto tudo combinado faz com que as notas acabem por perder o sentido em termos de como as interpretar e da informação que transmitem para a aprendizagem futura. É importante existir uma avaliação dos comportamentos, das atitudes e dos valores, mas as aprendizagens propriamente ditas têm de ser avaliadas separadamente.

Aqui o atestado de imbecilidade é passado aos encarregados de educação… como se o acompanhamento dos alunos se faça apenas através da leitura da nota na pauta. Acontece, mas há ainda quem faça mais do que isso e se informe junto do DT e tenha vários meios para comunicar, inquirindo a escola e os professores, acerca do desempenho dos seus educandos.

Mas Paulo Santiago faz tábua rasa disso tudo e comete o erro que aponta aos outros e ainda comete sucessivas confusões: dá por adquirido que os professores só fazem testes, que isso é que conta para a avaliação final e que deveriam entrar em conta outros factores. Mas depois afirma que a nota final é formada pela avaliação das aprendizagens e dos comportamentos e que isso é confuso. No que ficamos?

E ainda dá a entender que os encarregados de educação não recebem (ou procuram) outro feedback que não seja o da nota final e que não têm forma de distinguir avaliação das aprendizagens da avaliação dos comportamentos. Isto é ridículo. Isto é pura ignorância sobre o que se passa e tem passado, anos a fio, no quotidiano escolar que muitos de nós conhecemos directamente, e descredibiliza profundamente as suas afirmações, porque dá a entender que o que afirma se baseia numa observação muito lacunar do que se passa nas escolas portuguesas.

Se há algo que se tem feito nas últimas duas décadas é produzir tanto feedback informativo que quase se tornou ruído.

E é espantoso porque não se percebe se Paulo Santiago pretende que a avaliação se torne cada vez mais um paraíso de grelhas e parâmetros, à maneira dos anos 90 e de que ainda há muitos vestígios, se apenas quer que se fale sobre as coisas, sem deixar rasto documental. Ou se é para fazer uma síntese. Só que tudo isto existe. O que é fado é ter de ler/ouvir que não.