GAVE: Mais profissionalismo, sff.

Não sendo eu professor nem profissional relacionado com as áreas lecionadas no ensino secundário, mas encontrando-me delas próximo por motivos familiares, ciclicamente sinto-me incomodado por serem incluídas nas provas nacionais questões que dão azo a polémica entre os profissionais da área, quanto à resposta correta. Tais episódios traduzem indubitável e imperdoável falta de atenção na preparação das provas, constituindo verdadeira desconsideração pelo trabalho desenvolvido pelos professores na preparação dos alunos, a quem se pretende exigir seriedade e rigor.
Este ano o copo transbordou.
Está em causa a pergunta 3. do Grupo II do Teste Intermédio de Biologia e Geologia do 10º Ano de Escolaridade (Versão 1) e as respetivas hipóteses de resposta.
Para facilitar a compreensão do que está em causa atente-se na seguinte imagem, retirada de uma das fontes bibliográficas:

Se os autores da referida pergunta tivessem confrontado a informação presente no portaldoastrónomo.org – “depois de ter caído na Terra o meteorito fica protegido desta radiação pela atmosfera e os isótopos instáveis da radiação cósmica começam a decair” – com outras fontes credíveis, rapidamente chegariam à conclusão que a mesma não é rigorosa ou, no mínimo, emprega linguagem de sentido dúbio. Após a queda na terra, a concentração e quantidade de 36Cl presente no meteorito é que começa a diminuir ou a cair (não o 36Cl a decair) e ali dever-se-ia ler qualquer coisa como “depois de ter caído na Terra o meteorito fica protegido desta radiação pela atmosfera pelo que não surgem novos isótopos instáveis e os existentes, ao continuar a decair, vêm a sua quantidade/concentração diminuir”.
Efetivamente, o decaimento de 36Cl para 36Ar ocorre desde que o primeiro surge, ainda o meteorito anda a circular pelo espaço sideral, muitos milhões de anos antes de cair na Terra. A relação existente entre aqueles dois elementos no momento da queda, depende da Idade de Exposição à Radiação Cósmica do meteorito, ou seja, conforme a linha tracejada, que representa na imagem o momento da sua queda terrestre, se encontre mais para a esquerda ou mais para a direita.
Que assim é, demonstra-o o facto do resultado da relação  36Cl / 36Ar no momento da queda dos meteoritos férreos ser precisamente usado pelos cientistas para o cálculo das respetivas Idades de Exposição à Radiação Cósmica. Se o valor dessa relação fosse sempre o mesmo em todos os meteoritos no momento da sua queda na Terra, como é pressuposto no enunciado da pergunta 3, tal utilização não seria possível ou esse dado seria, para esse fim, indiferente.
Concluindo, o enunciado da pergunta 3 do Grupo II do Teste Intermédio de Biologia e Geologia do 10º Ano de Escolaridade (Versão 1) parte de um pressuposto errado e, face à ausência de outros dados, não se pode afirmar se alguma das alíneas , A, B, C ou D será falsa ou verdadeira. A pergunta 3 não tem solução.

Não sendo eu especialista desta área científica, não me foi difícil encontrar informação relevante sobre o assunto para o confrontar e verificar que estava incorreto. Que os responsáveis pela realização dos Testes Intermédios e Provas Nacionais também o façam antes de publicar as provas, será pedir muito?

Bibliografia:
– Pedras do Céu, Uma questão de idades. Disponível em http://www.portaldoastronomo.org/tema_pag.php?id=9&pag=2
– Encyclopedia of the Solar System 2e 2007 by Academic Press, Chapter 13 Meteorites, de Michael E. Lipschutz e Ludolf Schultz. Disponível em http://urania.udea.edu.co/sitios/astronomia-2.0/pages/descargas.rs/files/descargasdt5vi/CatedraAbierta/Meteoritos/Reference1_Meteorites_Asteroids.pdf
– Cosmic Ray Exposure Ages of Iron Meteorites Using 39K-40K-41K Dating, De Nirmala Shankar, 2011. Disponível em http://mss3.libraries.rutgers.edu/dlr/outputds.php?pid=rutgers-lib:36215&mime=application/pdf&ds=PDF-1
– A Systematic Study of the Cosmic-Ray-Exposure History of Iron Meteorites: 10Be-36Cl/10Be Terrestrial Ages. K. Nishiizumi et al, Disponível em http://www.lpi.usra.edu/meetings/metsoc97/pdf/5268.pdf
– Irradiation Records, Cosmic-Ray Exposure Ages, and Transfer Times of Meteorites, O. Eugster ey al, in Meteorites and the Early Solar System II, 2006. Disponível em http://www.lpi.usra.edu/books/MESSII/9004.pdf

António M. Marques