A recente entrevista de Passos Coelho à Renascença é uma espécie de desmentido relativamente à entrevista dada, há muito poucos dias, à TVI.

Nessa entrevista disse que não podia garantir que não existissem medidas adicionais de austeridade, mas quatro dias depois afirma que os subsídios retirados à Função Pública durante dois anos, afinal serão retirados durante três e retomados de forma apenas gradual.

Obviamente, isto significa que mentiu na passada sexta-feira pois nada de relevante aconteceu desde lá, excepção feita a uma conferência de imprensa de uns senhores europeus que terão avaliado aquilo que nesse dia o primeiro-ministro já sabia que eles teriam visto. O que sabia há quatro dias era o que sabe agora, excepto os resultados do futebol do fim de semana e mais alguns detalhes da via quotidiana.

E obviamente isto significa que mentiu em diversas outras ocasiões, assim como outros elementos do seu governo, a começar pelo ministro das Finanças.

Não sei se este tipo de mentira, evidente, pública, muito dificilmente spinável ou relvável, se enquadra naquilo que o Presidente da República considera ser motivo para uma quebra de confiança entre o Governo e os cidadãos que, em eleições, escolheram maioritariamente os partidos que o formam.

O desrespeito por promessas eleitorais é já comum, mas neste caso temos declarações dignas dos maus velhos tempos de Sócrates, em que depois de domingo se desdiz o que se garantiu antes de domingo.

A decorrer tudo como é habitual, o Presidente da República destacar-se-á pela omissão, por uma qualquer declaração dificilmente compreensível a anos-luz do momento certo escreverá como tudo isto o incomodou, mas nada fez de concreto.

Por muito menos, Sampaio defenestrou Santana, o má moeda.

Cavaco Silva, não.

Cavaco Silva não comenta agora, o que há meses considerou uma violação da equidade fiscal. Falta de coragem política e talvez algo mais.

A verdade é que Passos Coelho se tem revelado um primeiro-ministro que, embora com menor habilidade e menos lata, retorce os factos e as expectativas como convém a cada momento específico.

Resumindo: mente e tudo nos faz crer que mente sabendo que o está a fazer, que não é algo involuntário, fruto de azares circunstanciais.

Sei que haverá aqueles que irão afirmar que as coisas são assim porque sempre assim seriam. Que quem teve alguma esperança numa mudança ética na conduta dos principais responsáveis políticos era ingénuo. Tudo bem, eu não me importo nada de demonstrar publicamente a evolução do que penso e sinto.


(imagem encontrada aqui)