Não dei pela saída da peça no DN de 3ª feira sobre a questão da possibilidade de copiar nas escolas, incluindo Universidade. Por não saber exactamente o que saiu, pois o espaço é sempre pouco, ficam aqui as respostas completas dadas à jornalista Joana Capucho:

No âmbito da notícia sobre o direito a copiar para os alunos da Universidade de Sevilha, diz, no seu blog, que sempre deu esse direito aos seus alunos.

Sempre dei esse direito aos alunos, caso conseguissem enganar-me. A posteriori poderiam confessar sem consequências. Se fossem apanhados no momento, seriam penalizados.

– Já “apanhou” alunos a copiar? Se sim, quais os métodos que utilizavam?

Muitas vezes, mas mais no passado e quando leccionei 3º ciclo ou Secundário. Tradicionalmente, usavam-se os papelinhos escondidos nos bolsos, debaixo das pernas, dentro das mangas, enrolados dento das esferográficas. Também apontamentos decalcados em folhas brancas, que depois se viam contra a luz. Menmónicas para certos assuntos eram mais raras. Por vezes o próprio livro a ser aberto por pensarem que eu não estaria a ver. O olhar para o teste do parceiro, a pergunta sussurrada.
Actualmente, a tentação é a da utilização do telemóvel, mas é mais difícil, porque o objecto é mais visível e não pode estar presente na sala de aula à vista.

– O que acontece quando um aluno seu é apanhado a usar cábulas ou a copiar por um colega durante um teste/exame?

Um aluno meu se for apanhado a copiar num teste, terá um desconto na classificação equivalente ao que considero ter sido a utilização de “cábulas”. Só anulo um teste, sem direito a repetição, em casos muito, muito excepcionais.

No caso de exames, as regras são nacionais e diferentes, sendo o exame anulado.

– No seu entender, quais as questões subjacentes ao uso de cábulas?

O uso das cábulas tem um aspecto positivo que é o facto de, ao serem preparadas, serem uma técnica de resumo da matéria e, portanto, de estudo. Digo-lhes que se forem bem feitas, as cábulas não precisam de ser usadas, pois certamente eles se lembram do que fizeram e de parte (pelo menos) do conteúdo. Aliás, o estudar, fazendo apontamentos da matéria, esquemas, resumos, é a fase anterior a transformar isso numa “cábula” para uso no dia do teste.

A parte negativa é a cábula desleixada, o copianço de última hora, o aproveitar o teste alheio que é uma esfera de desonestidade intelectual para mim mais grave, pois revela total preguiça. Uma cábula bem feita dá trabalho.

– O que acha do facto de a Universidade de Sevilha ter dado aos estudantes o “direito à cópia”?

Depende de como se interpreta o “copianço”. Na Universidade fiz muitos testes com consulta e eram os mais difíceis, pois as perguntas eram mais complexas e exigiam um trabalho prévio de estudo, não chegando levar livros e apontamentos se não os soubessemos usar. E era necessário referir as fontes da informação.
Fiz testes em que me era dado um leque de possíveis perguntas e eu poderia levar para a aula o que entendesse no dia da avaliação. Era uma falsa “facilidade”, pois exigia um trabalho de pesquisa e de relacionação dos dados maior do que um teste sem consulta com perguntas mais directas.
Claro que o “copianço” simples de poder responder a perguntas directas com recurso a qualquer ajuda possível não é aceitável. E muito pior se os alunos nem referirem os meios usados.
Como disse, uma boa cábula exige pesquisa.

– Acha que esta medida devia ser aplicada em Portugal? Porquê?

Depende dos contextos e da forma como fosse posta em prática. Conheço casos no passado mais ou menos distante ou próximo, de autênticas fraudes académicas em testes e trabalhos, com os professores a serem incapazes de detectar trabalhos que não eram dos signatários, seja trabalhos copiados de outrem, seja produzidos por outras pessoas conhecendo o fim. Tudo porque os próprios professores não têm tempo ou paciência para fazer uma verificação extra (oral, por exemplo) dos métodos de trabalho usados e do próprio conteúdo.

Porque uma coisa é aceitar o recurso a meios adicionais de consulta num teste, outra aceitar o plágio e a mera cópia.

Resumindo, acho que seria uma medida mal interpretada e certamente usada de forma desregrada, ainda mais do que já acontece.

– Considera que os alunos encaram o uso de cábulas com normalidade, ou reconhecem-no como uma prática ilícita?

As duas coisas não se excluem, pois encaram o acto ilícito como normal, fruto de uma cultura de impunidade na sociedade que os rodeia. Observam personalidades a cometer actos ilegais e a conseguirem fugir das consequências com desculpas e detalhes formais. Conhecem a confissão de crimes em gravações, que depois são contestadas como prova, não sendo negado o crime.
Pelo que é normal que muitos considerem que o “truque” é um recurso como outro qualquer. Tentam não ser apanhados. Sendo-o, tentam arranjar múltiplas explicações. Imitam os modelos sociais vigentes.
Se temos juristas e políticos a assumir que há leis e medidas inconstitucionais, porque assim tem de ser, o que hão-de dizer adolescentes sobre isso?

Só um detalhe adicional.

Há já muitos anos, um aluno meu copiou e depois de o fazer, confessou-me como.
A aula era no rés do chão e ele deixou a janela semi-aberta na aula anterior, entrou no intervalo e resumiu 2 ou 3 respostas nas costas da cadeira à frente do seu lugar.

Não dei por nada, não o penalizei, conforme prometido. Era uma “injustiça” fazê-lo depois de tanto trabalho.

Anúncios