No post abaixo usei parte da argumentação de Daniel Oliveira em defesa das obras da Parque Escolar, recorrendo à seguinte passagem que acho perfeitamente simbólica de um pensamento quadrado sobre a realidade, de quem vive em Lisboa, com interesse em ter boas escolas para a classe em que se insere e os outros que comam pasto:

(…) a boa qualidade das instalações trava a degradação do ambiente nas escolas, melhora o desempenho de docentes e alunos, devolve a autoestima a toda a comunidade escolar e, mais importante, segura a classe média no ensino público, condição fundamental para garantir a qualidade de ensino e impedir a criação guetos sociais nas escolas.

Não tenho absolutamente nada contra as boas condições das escolas, muito pelo contrário, antes preferindo que a maior parte benefici(ass)e de infraestruturas onde o trabalho de alunos, funcionários e professores fosse o melhor.

Mas o problema é que o argumento classista de Daniel Oliveira – que acusa outros de preconceito ideológico e me dedica um dos maiores elogios que recebi em quase 47 anos de vida – desperta em mim uma série de campainhas e alertas contra esta esquerdinha engomada e muito feliz consigo mesma, das tertúlias urbanitas e progressistas, desde que mantidas com avença balsemânica (também tenho direito a adjectivar, ok). Se para ele sou retrógrado e corporativo no pior sentido do termo, então é porque estou a fazer algo certo, pois Daniel Oliveira não percebe pevas de Educação e sempre usou os professores como alvo para demonstração das suas teses rocambolescas sobre a autoridade numa escola ou numa sala de aula (relembre-se como, com base num vídeo de telemóvel qualificou imediatamente uma professora como incompetente, no caso da Secundária Carolina Michaelis).

Mas há o essencial da questão e o essencial da questão é que Daniel Oliveira acha bem que existam obras nas Secundárias da classe média, para que os filhos dessas famílias não partam para o sector privado.

Pois… a divergência entre nós é claramente um problema de classe e quiçá de ciúme social.

É que eu dou aulas em escolas de classes abaixo da média há mais de 20 anos e eu próprio não sinto que roce o que se pode considerar classe média num país desenvolvido. Sou aquilo que outrora se considerava remediado.

E nas escolas onde leccionei o 2º CEB (as que já não são EB23) desde 1992/93 nenhuma recebeu obras da PEscolar e muitas delas (quase todas) estão em zonas fortemente carenciadas e deprimidas do ponto de vista social e económico, ao contrário das Filipas de Lencastre ou das Aurélias de Sousa, que Deus e Marx assim as mantenham.

Porque o projecto político da Parque Escolar nunca passou por dar melhores condições aos mais carenciados ou intervir onde havia mais necessidade. Passou por dar melhores condições a escolas para certas elites e, de caminho, lá se espalhou um pouco mais.

Abaixo disso, para o Básico, construíram-se os Caixotes Escolares, massificadores, com centenas de crianças empacotadas às centenas, a almoçar como na tropa, com a comida a chegar-lhes fria ao prato e a terem de brincar em pátios cimentados para testar a capacidade de resistência das roupas e da pele dos alunos.

A verdade, por muito que Daniel Oliveira e outros a ignorem ou mascarem, é que a Parque Escolar criou, dentro da rede pública de ensino, uma Escola Pública (uso o chavão tão querido da Esquerda de que, apesar de retrógrado, ainda me sinto parte) a duas velocidades: uma, urbana e secundária, com instalações state of the art para a classe média e outra, básica, suburbana ou rural, massificada, remendada para a arraia miúda que, mesmo com escolas em mau estado, não têm meios para ir para outro lado.

Ou seja, a Esquerda quis agarrar a classe média na rede pública, pois já sabia que as classes abaixo da média não se podem de lá safar, mesmo que as obriguem à mais brutal massificação e guetização.

De certa forma, um comentário do António Duarte revela isto mesmo:

Mas a verdade é que aqui em Coimbra se registou um aumento geral da procura nas escolas secundárias que foram intervencionadas, em detrimento das outras, que já estavam com dificuldades em conseguir alunos e agora estão mesmo, uma ou duas, ameaçadas de extinção.

Em diversos pontos do país, a intervenção da Parque Escolar acentuou fenómenos de guetização sócio-educativa.

Seria de esperar que a ideologia de Esquerda defendesse a distribuição dos recursos disponíveis por todos, de forma equitativa.

Não foi esse o projecto dos Governos de José Sócrates para a Educação, não é o projecto do actual Governo, nem sequer o de Daniel Oliveira e de algum Bloco de Esquerda e afins.

O projecto de todas estas forças é evidentemente classista

Uma escola a várias velocidades, dando mais aos que já mais têm e deixando na sombra dos investimentos quem menos tinha.

Podem dizer que os velhos Liceus tinham 50 a 80 anos ou mais e as EB23 têm 20-30 ou pouco mais.

O problema é que muitas EB 23 foram construídas à pressa, com materiais de 3ª categoria e ao fim de 20 anos estão com piores condições de trabalho que muitas Secundárias tradicionais.

Mas isso não interessa a Daniel Oliveira.

O grande argumento é que a derrapagem não foi de 400% mas apenas de 70 ou 80%

A Daniel Oliveira interessa, para além disso, chamar mentiroso ou retrógrado a este ou àquele. Fala na autoestima e na classe média. Burguesices, digo eu que contacto directamente com aquilo de que Daniel Oliveira apenas fala com conhecimento distante e teórico, muito ideológico.

Em todo o seu texto não se encontra uma preocupação com os mais desfavorecidos, os alunos das escolas básicas sem obras e candeeiros Siza Vieira.

Só que há alguma Esquerda que nunca me enganou, pois tem tanto amor à populaça quanto a maior parte da Direita. E colaborou, com alegria e convicção, na segmentação da própria Escola Pública que tanto clamam defender. Numa Escola Pública a duas velocidades. A deles, intervencionada, e a nossa (minha), remendada.