A DESUMANIZAÇÃO DA ESCOLA – OU O IMPOSSÍVEL ADEUS

I – UMA PROPOSTA E UM DESAFIO

Sob o título acima, proponho uma reflexão sobre o modelo de escola que está a ser construído, cujo vector mais saliente – e preocupante, do meu ponto de vista – é a sua crescente desumanização. E quando digo desumanização quero significar todo um processo global que está a afastar progressivamente a escola da sua “escala humana”, que fica mais evidente quando os seus agentes sentem que estão a perder aquelas referências próximas que tornavam o seu trabalho humano, isto é, quando os professores (e também os alunos) começam a deixar de se reconhecer naquilo que fazem e são tentados a conceder mais valor àquilo que (já) não fazem na escola. Quando a escola caminha para deixa de ser um espaço de afectos e se tornar uma mera empresa de serviços…

Esse processo de desumanização, bem entendido, afecta todos os aspectos da escola, a natureza das suas funções e objectivos, o modelo de ensino implementado, o estatuto e o papel dos docentes e alunos, a orientação das actividades pedagógicas, o desenho curricular e programático, o modelo de gestão, a estrutura da sua rede.

Se todos esses aspectos, por uma questão metodológica, podem ser considerados cada um por si, na realidade, interagem uns com os outros, e é na sua complexidade – e exactamente também por causa dela – que podemos articular a questão de fundo da desumanização que subjaz à evolução do conjunto.

Por outro lado, não se pode ignorar que a escola é um sistema aberto, com uma enorme permeabilidade em relação a tudo o que acontece na sociedade, o que dá à temática da desumanização uma envolvência e um sentido mais complexos.

Mas a escola, por seu lado, ou melhor, por definição, também age sobre a sociedade, e uma das questões cruciais que se pode levantar quando se pensa no modo como se poderá enfrentar a deriva desumanizante que assola sociedade e escola é indagar sobre as possibilidades que a escola pode ter na transformação desse estado de coisas, o papel social e cultural, no fundo, político – no sentido mais básico e nobre do termo – que ela poderá desempenhar.

Daí o “impossível adeus” do título, que pretende significar o inconformismo perante essa deriva que ameaça o cerne daqueles princípios e valores que, desde sempre, iluminara e deram significado à educação e ao ensino, e, se quiserem, à nossa actividade e às nossas vidas.

 Deste modo, desafiava os colegas a acompanhar activamente, com os vossos comentários e sugestões, o debate desta problemática, que, insisto, diz respeito a todos nós, ao sentido do nosso trabalho e, no fundo, das nossas vidas.

Pela minha parte, proponho-me apenas, através das opiniões que irei postando, ir lançando o debate sobre aqueles diferentes aspectos da realidade-escola em que o tema da desumanização acaba, de uma maneira ou de outra, por fazer sentir o seu insidioso peso.

Farpas