Só ao fim do dia li o artigo de Guilherme Valente, hoje, no Público. O qual padece – fora outras minudências – de um equívoco grave e de uma surpresa desnecessária.

Mas fiquemos com o artigo, para em seguida, explicar brevemente o que enuncio.

Começo pelo pormenor: a surpresa de Guilherme Valente ao ver-me como signatário de um documento a protestar contra cortes na Educação que recolocam o investimento no sector em níveis de há décadas, quando o habitual é investir-se nele em situações de crise económica (há bibliografia clara sobre o assunto na área da Economia da Educação), é surpreendente. Acho que Guilherme Valente perceberá que o conteúdo do manifesto não choca em nada com o que aqui e em outros lados sempre escrevi e defendi, pois nele nada vem em matéria pedagógica e quando convidado a assinar um documento com o qual concordo, não coloco condições sobre os restantes signatários mesmo que com eles não partilhe muitas posições.

Agora a questão maior e que me faz pensar que Guilherme Valente andou a ler a Educação ao contrário nos últimos 10 anos, algo que – isso sim – me surpreende.

Afirma GV que entre 2001 e 2011 se deram pequenos progressos nos educadores educacionais (não especifica), que o eduquês entrou em contenção e que foram tomadas medidas com as quais ele concorda, desde logo o aparecimento dos directores. Ora bem… é aqui que as nossas posições se dividem, tanto em matéria factual como de avaliação do valor de certas medidas.

Mas eu detalho os dois pontos que julgo fulcrais:

  • Entre 2001 e 2011 tivemos o império do eduquês em todo o seu esplendor. Foi em 2001 que foi aprovado o documento das Competências do Ensino Básico que o ministro Nuno Crato revogou há semanas e em que esse mesmo currículo foi invadido pelas ACND, o braço curricular do eduquês no seu estado de maior transversalidade e inutilidade, obra directa de alguém que Guilherme Valente habitualmente critica, incluindo neste seu texto (Ana Benavente). E isto é absolutamente paradoxal, pois Guilherme Valente parece ter tomado a nuvem do discurso ríspido de Maria de Lurdes Rodrigues como um afastamento do eduquês, parecendo desconhecer a obra legislativa do período e, muito em particular, a acção do secretário de Estado Valter Lemos. Se há década de consolidação do chamado eduquês foi exactamente a de 2001-2011 com toda a pressão para apresentar estatísticas com escassa substãncia, com tudo isso envolvido por uma retórica balofa, verborreica e sem outro objectivo que não promover as competências em vez dos conhecimentos. Guilherme Valente parece confundir a década em causa com o curto período em que o seu amigo David Justino foi ministro. E está claramente enganado.
  • O outro ponto relaciona-se com o aparecimento do modelo único de gestão, unipessoal, que ele considera um avanço quando mais não passa do que de uma imposição autoritária, que diminui a autonomia dos órgãos de gestão e reforça os mecanismos de dependência hierárquica no sistema de ensino. E que foi uma medida associada a outras que muito contribuíram para a degradação do clima vivido nas escolas, para a desagregação de um espírito de trabalho em grupo e para a quebra dos laços de solidariedade interna que ainda existiram e não eram negativos para o trabalho com os alunos. E é aí que reside um grande equívoco: a existência de um modelo único e gestão em nada melhora o trabalho dos professores na sala de aula com os alunos. A conversa da responsabilização não tem qualquer demonstração empírica e não passa de um preconceito ideológico, tão ou menos válido do que aquele que defende que a co-responsabilização é a melhor forma de motivar os executores de uma qualquer política. Ora… até ao 75/2008 podia escolher-se entre dois modelos de gestão. Agora, não. Na minha forma de encarar as coisas, aqui foi decisivamente limitada a Liberdade de escolher.

E surpreende-me que Guilherme Valente não veja nada disto.