Atinge quase todos aqueles que têm analisado, pró e contra, a decisão da Jerónimo Martins. Uns, do lado do PS, esquecem-se que estão com um nível de creditação muito baixo para dar lições de ética seja a quem for. Do lado do PSD/CDS que a conversa dos sacrifícios não cola com a forma como têm conduzido a desigual repartição dos mesmos, concedendo facilidades muito assimétricas.

A certa altura já só são coerentes, embora anacrónicos, aqueles que recuperam as teses da luta de classes de outrora, embora tropeçando na sua própria argumentação:

Tudo isto leva-nos a clarificar a reflexão sobre um número vasto de temas actuais. Começando pelas Greves, estas são simplesmente a única forma efectiva de luta social dos trabalhadores. Se individualmente estes estão dependentes do trabalho sem que o trabalho esteja dependente deles, unidos, conseguem fazer depender de si o trabalho. A opinião ortodoxa defende os contratos individuais e o despedimento individual para diminuir o poder dos trabalhadores na relação mercantil. A propaganda anti-greves e anti-sindicatos tem como objectivo a desunião dos trabalhadores com o objectivo de os manter ordeiros e respeitadores da ordem instaurada.

Mas há mais, por exemplo, a fuga de capitais e a evasão fiscal da qual o Grupo Jerónimo Martins é o mais recente caso. As relações de poder são óbvias: os trabalhadores não têm poder para transferir as suas posses para países onde os impostos são mais baixos, grandes grupos empresariais sim. A resposta dos críticos desta acção do GJM foi a de apelar ao boicote a estabelecimentos comerciais do Grupo mas, todos sabemos que a acontecer, sofrerão acima de tudo os trabalhadores, já mal pagos à partida, com a ida para o desemprego.

A ver se percebo:

  • A única forma de luta eficaz é a greve.
  • O boicote às compras no Pingo Doce é errado porque, indirectamente, penaliza os trabalhadores, mal pagos, do grupo.

Mas então… o que resta? Porque a greve – panaceia universal para os conflitos sociais – também irá agravar a situação dos trabalhadores mal pagos? Ou não?

Pelo que, logicamente, a argumentação cai por  terra. Ou é incoerente nos seus próprios termos-

E é necessária uma nova forma de luta.