Foi hoje de manhã. O mafarrico ortodoxo apareceu e pensou ter desferido um ataque fulminante:

O pantomineiro egomaníaco dá tantas cambalhotas que é impossível perceber no momento de que lado está.

Na sua senil cabecinha a observação deve ter-lhe parecido uma coisa fantástica e demolidora. Pobre coitado, eu concordo com ele e subscrevo. Porque eu não tenho lados, pelo menos da forma que ele considera existirem bons e maus, castas puras e outras intocáveis.

E passo a explicar porque considero um enorme elogio aquilo que ele escreveu.

O que o mafarrico ortodoxo de serviço aqui ao blogue parece não perceber (e acredito que o bestunto, de tão desabituado de pensar por si mesmo não alcance) é que o que escreveu é algo que revela uma verdade de que me orgulho.

Sinto-me muito bem pelo facto do mafarrico e dos restantes mafarricos ortodoxos da organização a que pertence e de outras organizações monolíticas não me conseguirem encontrar naquele ponto em que gostariam que eu estivesse em relação a eles e ainda mais pelo facto de me acharem complicado de posicionar.

Porque a coisa é simples de explicar. O mafarrico está dentro do Grande Colectivo Organizacional ao qual é fiel em primeira (única?) instância. Ele não está interessado em defender os professores, em particular, ou os portugueses, em geral. Aliás, ele abomina os professores e portugueses que pertençam a outras Organizações que não aquelas a que ele pertence. Basta ver como o mafarrico e amigos tratam todos aqueles que vestem cores diversas e pensam diferente.

E as suas posições seguem as da sua Organização (ou Organizações, mas fiquemos agora pelo singular, que dá para entender melhor) e movem-se no meio dela, com todos os seus colegas puros em redor. Como está no meio do ambiente costumeiro, mesmo que este faça inversão de marcha, o mafarrico pensa estar sempre, de forma coerente, no mesmo ponto.

Mas não está.

Eu exemplifico.

A Organização está contra um estatuto de carreira e um sistema de avaliação. Mas, de acordo com os seus interesses estratégicos, assina acordos e entendimentos que validam aquele estatuto e sistema de avaliação.

Mais giro… há membros da Organização que se dedicam a colocar em prática as coisas, adequando-se ao papel que antes criticavam acerbamente. O mafarrico tem um amigo (certamente mais) que fez isso. Era contra a ADD mas contribuiu para que fosse posta em prática. O mafarrico não acha isso incoerente. Fossem outros fazer tal coisa…

O mesmo se passa com o modelo de gestão. Eram contra, mas não se negaram a tomar posições. E sentem-se bem com isso, porque se acham os “melhores” para aplicarem o que criticavam. Dizem que é para defender os interesses dos colegas. Quais colegas? Depende da cor…

Portanto, em matéria de desposicionamento, ninguém melhor do que o mafarrico para termos alguém a navegar à vista, conforme as indicações superiores e reagindo de forma pavloviana e salivosa aos conceitos (plásticos quando convém) de Esquerda e Direita.

O mafarrico coerente é de uma cor contra as outras, sejam quais forem as medidas em causa.

E acusa os outros de mudarem de posição quando o que os outros – eu, por exemplo – se limitam a fazer é defender princípios e ideias de forma consistente, não reagindo aos rostos e siglas, mas pretendendo que as situações se resolvam, Os apoios ou afastamentos são determinados por acções concretas. Não por nomes ou preconceitos ideológicos. Apenas pela justeza do que é feito (ou não).

 O que não significa que se aceite qualquer um ao lado, em especial quando se sabe que lá está por tacticismo ou oportunismo organizacional.

A diferença fundamental é que há quem defenda o que acha ser justo para a sua classe profissional e quem defenda, em primeiro lugar, o que é mais vantajoso para a Organização.

É assim que se compreende que governantes e certos mafarricos acusem, de igual modo, de “corporativos” aqueles que defendem a sua profissão antes de defenderem um sindicato, um partido ou um líder, vivo ou defunto.

Se defender as minhas convicções, sem acompanhar rebanhos organizacionais faz de mim alguém pantomineiro que dá cambalhotas, assim seja.

Do vosso lado não estou, por certo.

Antes isso do que dá-las no meio do rebanho e estar convencido de ser coerente só porque se acompanha a incoerência envolvente.

Para fim de ano até que o mafarrico me deu um belo presente.

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