Apeteceu-me. Tenho aqui uma horita que dá para encher e então vou relembrar coisas com mais de 15 anos, algumas perto de 30.

Em tempos de licenciatura em História na FCSH, fiz a cadeira de Matemática para as Ciências Sociais e Humanas e depois a opção de Demografia Histórica. Era responsável pelas cadeiras J. Manuel Nazareth, mas leccionava-a efectivamente a assistente, a sempre simpática drª Maria Luís Rocha Pinto (com a presença ocasional de uma então muito jovem Maria João Valente Rosa). Aprendi o essencial daquilo que agora se faz com folhas de cálculo (na altura quanto muito falava-se no dbase) e os conceitos fundamentais da coisa com uma avaliação a contento, mas não propriamente excepcional (18 e 16, que partilhei com vários colegas).

Entretanto fui publicando pouca coisa na área, mas sempre que possível com recurso a fontes estatísticas.

Mais tarde, já nos anos 90, no mestrado em História Contemporânea, tive um semestre de Metodologia para a História Económica com a Professora Ana Bela Nunes da Faculdade de Economia da Nova, porque na leva anterior os mestrandos se tinham entendido com dificuldade com o Professor Jaime Reis, pois achavam a cadeira muito difícil de acompanhar. E com a Profª Ana Bela Nunes também, para desespero dela quando nos via completamente aos papéis ao fim de 20 minutos de aula. O pessoal perdia-se nas regressões e contrafactuais com alguma facilidade, mas tinha vergonha e calava-se, acenava e fingia que. Com o feitiozinho da treta que na altura tinha ainda com mais viço, eu perdia a paciência e perguntava o que era aquela variável delta não sei quê em que eu me perdera. No final, numa avaliação informal, foi-nos dito que se fossemos alunos de um mestrado de Economia teríamos 2 medíocres e o resto (uns 10) seriam maus. Eu, juntamente com o já falecido Fernando Figueiredo fazíamos o duo de medíocres. Curiosamente ou não, éramos trânsfugas interessados em História das Mentalidades, ele nos rituais mortuários e nos cemitérios, eu no quotidiano feminino. Os futuros historiadores económicos eram os outros. Talvez se perceba porque, em muitos casos, prescindo de comprar certas obras.

Nada de grave se na dezena restante não estivessem, como referi, futuros (presentes!) vultos da historiografia com cargos de responsabilidade na Academia. E, se estendessemos a lista para o tal mestrado anterior, teríamos uma boa meia dúzia de personalidades com distintas responsabilidades nas lides académicas, comemorativas, editoriais e etc.

Nada de grave, afinal, se alguns dos actuais aprendizes de demógrafos-feiticeiros não tivessem passado por cursos e instituições onde pontificam os tais vultos. Que de métodos estatísticos e análise de fontes desse tipo percebem muito pouco. Mas adiante. Pode ser que tenham aprendido com bons professores e não aqueles.

Mas voltando às memórias de um tempo passado em que eu tinha mesmo mau feitio.

Ainda nesse mestrado, tive um dia um desaguisado bastante azedo na apresentação de um trabalho meu sobre a evolução do custo de vida e dos salários nas primeiras décadas do século XX. Para o fazer foi necessário recorrer a duas séries de dados sobre preços e salários, uma com origem no Boletim do Trabalho Industrial e outra já com base nos dados do recém-criado INE. Cito isto de memória, mas acho que ainda tenho algures, roídas pelos bichinhos do papel durante 18 anos, as tabelas então feitas na folha de cálculo do MSWorks (lembram-se?). As duas séries eram pouco compatíveis, porque os índices tinham bases diversas e o melhor que se podia fazer – sem regressões a partir da série do INE, porque aquilo era um simples trabalho de seminário – era sobrepor as duas séries nos anos em que coincidiam e criar um terceiro índice que compatibilizasse as duas séries.

Trabalho feito – burro, porque bastaria ter usado uma das séries e carregado no botão de automático com conclusões compatíveis com as da tese do responsável pelo seminário – e apresentado, sou completamente trucidado pela personalidade em ascensão meteórica porque não devia ter estendido a série, deveria ter tratado apenas uma ou outra (sendo que a colagem incidia no período crítico da Ditadura Militar e chegada de Salazar ao Min. Finanças) e não ter ousado fazer o que ele e os que ele conhecia já tinham feito.

E então confirmei que, para muita gente, os números e os métodos estatísticos são meros pretextos para justificar selectivamente certas teses e não para se fazer uma aproximação ao conhecimento da realidade, tal como ela possa ser mensurável, sempre com a devida contextualização.

Portanto, quando agora me aparecem os discípulos desses vultos maiores e menores a pregar a Estatística e a Demografia como fundamento para as suas posições ideológicas, posições essas que antecedem em muito os dados que apresentam, fico sempre com um sorriso e uma desconfiança enorme. Quer pela substância, quer pela forma como as coisas surgem, subitamente, no discurso político.

E dificilmente me sinto intimidado se enviam 3 ou 4 vagas de ataque ou contra-ataque.É deixai-los pousar.

Mas sobre isso já escrevo em seguida, depois de ir ali beber um moscatel premiado, porque estou a ficar com um friozinho digital.