Terça-feira, 27 de Dezembro, 2011


Mudcrutch, Scare Easy

18 de Novembro de 2011:

Jardim não vai aumentar impostos na Madeira

27 de Dezembro de 2011:

Jardim: “Eu nunca disse que não ia aumentar impostos”

Passemos então das coisas propriamente demográficas para as educacionais. Procuremos a arma fumegante que demonstra a desnecessidade de mais professores porque os portugueses andam a procriar menos.

A fonte é oficial.

Eu sei que dizem que esta é uma série curta, mas é aquela que está acessível com desdobramento de dados, em particular com os processos RVCC, vulgo Novas Oportunidades, que permite melhor analisar a evolução.

Vejamos então… em 2005/06 existiam 1.648.588 alunos matriculados. Em 2007/08 tinham subido para 1.701.482. Quase mais 53.000 alunos. E em 2008/09 sobrem para 1.952.114. O salto é realmente muito forte. Mais 250.000 alunos…

Salto quântico devido às NO, dizem os demógrafos negativos.

Então somemos os processos RVCC em 2008/09: 472 no 1º CEB, 8831 no 2º CEB, 100.688 no 3º CEB e 98.129 n0 Secundário. Total 208.120 alunos devidos às NO.

Mas o acréscimo foi de 250.632. O que significa mais 42.500 alunos matriculados, sem contar com as NO.

Pois… e agora?

Há mais ou menos alunos nas escolas?

Há mais! Deu agora para entender?

Podem não esticar muito mais mas, neste momento, é errado dizer que há menos alunos. Errado! percebem o conceito? Há coisas certas e outras erradas. A menos que ainda sejam pós-modernos ou então sejam relativistas tipo BSS.

Podem martelar a Demografia Negativa nos dados, evocar mais algumas teorias, mas não conseguem que ela desminta os factos.

Quanto à evolução comparativa do número de docentes, alunos, rácios, alunos por turma, etc, fica para amanhã, porque isto é feito de borla e se fosse à hora num seminário de apoio à investigação num curso de doutoramento eram umas centenas de euros que seriam cobrados aos alunos para aprenderem coisas básicas de uma licenciatura antanha.

 

Até 2009 temos, portanto, uma evolução em que o saldo natural (natalidade menos mortalidade) é desfavorável a partir de 2007 (o que é diferente de falar em natalidade negativa). Mas em que esse saldo é compensado pelo migratório, permitindo que a taxa de crescimento efectivo seja positiva.

Agora passemos aos dados dos censos de 2011, aqueles que tanto entusiasmam os apologistas da demografia negativa. Os gráficos são da Pordata:

A população cresce, conseguindo a última década ultrapassar mesmo os dados para a década de 80, que verificou um crescimento residual.

E agora a distribuição por grandes grupos etários:

Em termos relativos, o grupo etário dos jovens perde 1,1% em relação a 2001, enquanto aumenta o dos idosos. Chama-se a isto o envelhecimento da população. É quando a base da pirâmide etária encolhe e a dita cuja parece ficar algo obesa.

Vejamos agora os números absolutos:

É aqui que a insurgência passista-relvista fica toda entusiasmada porque vai a 1960 e vê ali muito mais criançada e estabelece a relação entre a demografia negativa e as (des)necessidades de professores porque há menos crianças em idade escolar.

Esquecem-se quem 1960 a escolaridade obrigatória era de 4 anos. Um detalhe. E que só em 1967 passou a ser de 6 e nos anos 80 de 9 anos. E em 2009 foi aprovada a de 12 anos.

Chamam a isso uma questão administrativa.

Se nos concentrarmos agora na evolução mais recente da população percebe-se que entre 2001 e 2011 os jovens até aos 14 anos (que não incluem muitos abrangidos pela escolaridade de 9 anos e nem sequer contemplam os já abrangidos pela de 12 anos) são menos 84.000, algo acima dos 5%.

Resta agora saber se esse valor corresponde efectivamente a menos alunos matriculados no ensino não-superior. É assunto para outro post que isto não é um artigo para revista especializada… e há que digerir a informação. Há que não forçar muito as sinapses funcionais.

Para dados demográficos:

Para dados sobre a Educação:

Para a papinha toda feita:

 

 

Apeteceu-me. Tenho aqui uma horita que dá para encher e então vou relembrar coisas com mais de 15 anos, algumas perto de 30.

Em tempos de licenciatura em História na FCSH, fiz a cadeira de Matemática para as Ciências Sociais e Humanas e depois a opção de Demografia Histórica. Era responsável pelas cadeiras J. Manuel Nazareth, mas leccionava-a efectivamente a assistente, a sempre simpática drª Maria Luís Rocha Pinto (com a presença ocasional de uma então muito jovem Maria João Valente Rosa). Aprendi o essencial daquilo que agora se faz com folhas de cálculo (na altura quanto muito falava-se no dbase) e os conceitos fundamentais da coisa com uma avaliação a contento, mas não propriamente excepcional (18 e 16, que partilhei com vários colegas).

Entretanto fui publicando pouca coisa na área, mas sempre que possível com recurso a fontes estatísticas.

Mais tarde, já nos anos 90, no mestrado em História Contemporânea, tive um semestre de Metodologia para a História Económica com a Professora Ana Bela Nunes da Faculdade de Economia da Nova, porque na leva anterior os mestrandos se tinham entendido com dificuldade com o Professor Jaime Reis, pois achavam a cadeira muito difícil de acompanhar. E com a Profª Ana Bela Nunes também, para desespero dela quando nos via completamente aos papéis ao fim de 20 minutos de aula. O pessoal perdia-se nas regressões e contrafactuais com alguma facilidade, mas tinha vergonha e calava-se, acenava e fingia que. Com o feitiozinho da treta que na altura tinha ainda com mais viço, eu perdia a paciência e perguntava o que era aquela variável delta não sei quê em que eu me perdera. No final, numa avaliação informal, foi-nos dito que se fossemos alunos de um mestrado de Economia teríamos 2 medíocres e o resto (uns 10) seriam maus. Eu, juntamente com o já falecido Fernando Figueiredo fazíamos o duo de medíocres. Curiosamente ou não, éramos trânsfugas interessados em História das Mentalidades, ele nos rituais mortuários e nos cemitérios, eu no quotidiano feminino. Os futuros historiadores económicos eram os outros. Talvez se perceba porque, em muitos casos, prescindo de comprar certas obras.

Nada de grave se na dezena restante não estivessem, como referi, futuros (presentes!) vultos da historiografia com cargos de responsabilidade na Academia. E, se estendessemos a lista para o tal mestrado anterior, teríamos uma boa meia dúzia de personalidades com distintas responsabilidades nas lides académicas, comemorativas, editoriais e etc.

Nada de grave, afinal, se alguns dos actuais aprendizes de demógrafos-feiticeiros não tivessem passado por cursos e instituições onde pontificam os tais vultos. Que de métodos estatísticos e análise de fontes desse tipo percebem muito pouco. Mas adiante. Pode ser que tenham aprendido com bons professores e não aqueles.

Mas voltando às memórias de um tempo passado em que eu tinha mesmo mau feitio.

Ainda nesse mestrado, tive um dia um desaguisado bastante azedo na apresentação de um trabalho meu sobre a evolução do custo de vida e dos salários nas primeiras décadas do século XX. Para o fazer foi necessário recorrer a duas séries de dados sobre preços e salários, uma com origem no Boletim do Trabalho Industrial e outra já com base nos dados do recém-criado INE. Cito isto de memória, mas acho que ainda tenho algures, roídas pelos bichinhos do papel durante 18 anos, as tabelas então feitas na folha de cálculo do MSWorks (lembram-se?). As duas séries eram pouco compatíveis, porque os índices tinham bases diversas e o melhor que se podia fazer – sem regressões a partir da série do INE, porque aquilo era um simples trabalho de seminário – era sobrepor as duas séries nos anos em que coincidiam e criar um terceiro índice que compatibilizasse as duas séries.

Trabalho feito – burro, porque bastaria ter usado uma das séries e carregado no botão de automático com conclusões compatíveis com as da tese do responsável pelo seminário – e apresentado, sou completamente trucidado pela personalidade em ascensão meteórica porque não devia ter estendido a série, deveria ter tratado apenas uma ou outra (sendo que a colagem incidia no período crítico da Ditadura Militar e chegada de Salazar ao Min. Finanças) e não ter ousado fazer o que ele e os que ele conhecia já tinham feito.

E então confirmei que, para muita gente, os números e os métodos estatísticos são meros pretextos para justificar selectivamente certas teses e não para se fazer uma aproximação ao conhecimento da realidade, tal como ela possa ser mensurável, sempre com a devida contextualização.

Portanto, quando agora me aparecem os discípulos desses vultos maiores e menores a pregar a Estatística e a Demografia como fundamento para as suas posições ideológicas, posições essas que antecedem em muito os dados que apresentam, fico sempre com um sorriso e uma desconfiança enorme. Quer pela substância, quer pela forma como as coisas surgem, subitamente, no discurso político.

E dificilmente me sinto intimidado se enviam 3 ou 4 vagas de ataque ou contra-ataque.É deixai-los pousar.

Mas sobre isso já escrevo em seguida, depois de ir ali beber um moscatel premiado, porque estou a ficar com um friozinho digital.

O pessoal do CDS! Mesmo sendo Lobo Xavier… ou melhor… em especial por ser Lobo Xavier, que tem um pouco e tudo menos de parvo. Manter Seguro na liderança do PS é uma garantia de vida eterna para o actual Governo.

Que o próprio não perceba que não tem jeitinho nenhum para fazer política fora de comissões, secretariados, gabinetes e encontros para ouvir é dramático.

Embaraço de Seguro é uma qualidade, não um defeito

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