Enviada o mês passado e que agora me chegou, por mail da própria autora:

Ex.mo Senhor
Ministro da Educação e Ciência

Assunto: Reconduções de contratados

Eduarda Gonçalves, professora contratada de Língua Portuguesa, natural de Ponte da Barca, em atividade , até 31 de Agosto de 2012, na Escola Básica Dr. Rui Grácio – Sintra, 12 anos de tempo de serviço, e possivelmente desempregada no próximo ano letivo, venho por este meio tentar sensibilizar o Senhor Ministro para a injustiça das reconduções de professores contratados.

Talvez seja importante referir que 8 desses 12 anos foram passados a servir a minha pátria , a Língua Portuguesa, em Cabo Verde, ao abrigo da cooperação. Eu sei que, para o português comum, Cabo Verde talvez seja sinónimo de férias paradisíacas, mas esses anos nada tiveram de paradisíaco, pois estava bem longe dos catálogos promocionais das agências de viagens. Falta acrescentar a esta estadia, uma criança de seis meses, que aprendeu como primeira língua o crioulo, que frequentou os primeiros anos de escola, numa turma de 42 alunos, num espaço exíguo, com livros e cadernos sem cor, com intervalos preenchidos de lanches rodeados de moscas e brincadeiras ausentes de baloiços e escorregas. Perguntar-lhe-ão se foi feliz. Garanto que sim.

Após oito anos de num país muito diferente da sua pátria, este menino regressou à dita pátria e recomeçou uma vida diferente, certamente melhor, pensarão alguns, pois recebeu um computador, tinha aulas de Educação Física numa piscina, livros cheios de cor……..Desses dias, fica-me para a vida a pergunta inocente que me lançou : Mãe, a minha escola é um colégio privado?” .
Com este menino regressou também a sua mãe, que, oito anos antes, partira com ele no regaço e com a esperança de voltar um dia, proporcionando-lhe um futuro melhor. Ainda não nos tínhamos instalado e tivemos de partir novamente, pois ficara colocada no Algarve e era lá que recomeçaríamos a nossa vida, continuando longe de casa, mas pelo menos com trabalho. No três anos seguintes , repetiu-se a situação, novo recomeço, mas com trabalho. E sempre que era confrontada com a questão “Mãe, este ano vou para outra escola?” eu respondia categoricamente “Sim, a mãe precisa trabalhar”.
Em Setembro de 2011, repetiu-se a pergunta”Mãe, este ano vou para outra escola?”, à qual respondi :” sim, mas desta vez regressamos a casa, porque a mãe não tem trabalho”(só fiquei colocada no dia 12 de Setembro).
Hesitei durante algum tempo em escrever a Vossa Excelência, decidi fazê-lo hoje ,porque cada dia que passa sinto-me invadida por sentimentos de indignação, revolta, insegurança…. Sinto-me desrespeitada, e sobretudo injustiçada, pois há gente com metade do meu tempo de serviço, metade dos meus sacrifícios, metade da minha luta, a trabalhar perto de casa e na mesma escola há três anos, porque tiveram a felicidade de ser reconduzidos, porque tiveram a felicidade de trabalhar numa escola com horário para eles……Como posso eu conformar-me com o facto de trabalhar ou não, sustentar o meu filho, depender do fator sorte? Recuso-me a aceitar o fado, tão português, como culpado da falta de justiça de que se reveste a colocação de professores. Ainda não desesperei por completo, porque não me abato facilmente e porque tenho um filho para criar com justiça ou sem ela.
Senhor Ministro, porque ainda não desisti de acreditar, porque ainda sonho com um mundo melhor e sobretudo mais justo espero que os decisores políticos ajam com justiça e terminem com as reconduções dos professores contratados.

Grata pela atenção dispensada

A professora
Eduarda Gonçalves