Já voltaremos às declarações do PM a incitar ao êxodo dos portugueses para os trópicos em homenagem à vocação miscigenadora nacional (avé Gilberto Freire!).

Mas por agora não deixemos de evocar a teoria económica marimbeira do deputado da Nação Pedro Nuno Santos, insigne economista de ditosa estirpe.

Já sei… o que ele disse para muitos até foi corajoso e tal, a substância está lá, a forma é que foi infeliz porque nos comícios de província – quando se pensa que ninguém nos ouve fora dali, esquecendo-nos que há novas tecnologias no mais pequeno telemóvel – se podem dizer todas as coisas sem que seja pecado, assim como nas festas de Verão se pode ouvir pimba e continuar a ser melómano clássico.

Só que sou obrigado a admitir que a teoria económica marimbeira não é sequer novidade entre nós, em especial na variante pede-se emprestado, não se fazem cálculos sobre o retorno do investimento tendo em conta os riscos, gastam-se os lucros rápidos conforme dá gozo e depois logo se vê.

A teoria económica marimbeira tem, ao invés, fortes raízes na nossa História pois foi experimentada sempre que Portugal viveu períodos áureos que, sim, existiram, embora escassos.

  • Vejamos a época dos Descobrimentos e da Expansão para Oriente em busca de cristãos e especiarias, em particular aquelas décadas iniciais do século XVI quando a abertura da rota do Cabo parecia ir tornar Lisboa um entreposto mundial para o provir e Portugal o centro do mundo em processo de globalização. Já na altura, a Coroa nacional funcionou na base da dívida pública para fazer investimento. Financiou as armadas da Índia com recurso a empréstimos contraídos junto dos banqueiros europeus (já na altura havia uns proto-alemães cheios de massa, mais uns italianos e flamengos que gostavam de emprestar a elevados juros) e os avultados lucros dos primeiros tempos fizeram a coisa desproporcionar-se. Não foram SCUT, mas os exploradores e navegadores tugas espalharam rotas por todo o Índico e Extremo Oriente, mas os custos da utilização e manutenção do empreendimento revelaram-se incomportáveis ao fim de uns 25-30 anos e a coisa entrou em colapso ainda Quinhentos ia a meio, porque os piratas europeus (espertalhões!) ficavam no Atlântico à espera das naus e sacavam-nos a pimenta, a canela, o gengibre, os perfumes e outras coisas que tais ou então acabavam por provocar-nos tamanhos prejuízos que as contas começaram a inclinar-se. Só que, quais engenheiros, continuámos a insistir até nos enterrarmos de vez com Alcácer-Quibir e a rendição aos castelhanos.
  • Já no início do século XVIII o processo foi ligeiramente diferente, porque do Brasil começaram a jorrar (para além de mulatas e telenovelas mais tarde) diamantes, ouro e outras mercadorias menores sem necessidade de grande investimento ou empréstimos. Só que o nosso simpático e barroco D. João V entusiasmou-se, nem fazia contas às despesas e desatou a construir um palácio do caraças só porque procriou filho homem, convidou todo e mais alguém da estranja para dar espectáculos na Corte quase non-stop (pensavam que os festivais de pop, rock e dance music de Verão não têm precedentes?) e ainda decidiu fazer uma obra (o Aqueduto…) que aliou a utilidade à majestade mas que, a certa altura, se percebeu ser demais para os bolsos que tinham fundo e foi preciso adaptar o real d’água para a população, criando o princípio do utilizador-pagador. E já na altura se verificaram interessantes derrapagens no prazo de conclusão das obras. Pouco tempo depois, andava ainda o Sebastião José a tirar as medidas aos Távoras e caiu-nos um terramoto em cima e não foi no sentido figurado. Ficámos a caminho de alguma penúria, pois tanto ouro e diamantes tinham escorrido para muita coisa, mas não para aquela a que certa facção de economistas chama a acumulação e muito menos para a que permite investimentos reprodutivos na economia.

A partir daí nunca mais nos endireitámos verdadeiramente até a Europa decidir adoptar-nos e colocar-nos vinte anos de subsídios nas mãos para brincarmos.

Se acham que escrevo isto só porque achei giro (é verdade!), podem sempre verificar que durante uns anos até trabalhei na área e a gracinha tem algum fundamento quer na História ela mesma, quer nos meus conhecimentos sobre ela.

E chegámos aqui. E às teorias marimbeiras do senhor engenheiro e de seus deputados (porque ainda são os que ele escolheu…) que, efectivamente, têm tradição entre nós só que antecedendo os períodos de maior colapso nacional.