Domingo, 18 de Dezembro, 2011


Quem poluiu, quem rasgou os meus lençóis de linho,
Onde esperei morrer, – meus tão castos lençóis?
Do meu jardim exíguo os altos girassóis
Quem foi que os arrancou e lançou ao caminho?

Quem quebrou (que furor cruel e simiesco!)
A mesa de eu cear, – tábua tosca, de pinho?
E me espalhou a lenha? E me entornou o vinho?
– Da minha vinha o vinho acidulado e fresco…

Ó minha pobre mãe!… Não te ergas mais da cova.
Olha a noite, olha o vento. Em ruína a casa nova…
Dos meus ossos o lume a extinguir-se breve.

Não venhas mais ao lar. Não vagabundes mais,
Alma da minha mãe… Não andes mais à neve,
De noite a mendigar às portas dos casais.

[Camilo Pessanha]

Sex Pistols, No Future

… dirigidas ao excelentíssimo senhor primeiro-ministro.

  • Agora não há perdoa-me que apague a borrada/burrada.
  • Como dizem que vivemos em democracia, nas próximas eleições acertamos contas. E olhe que o anterior começou a sair do lugar exactamente por ter faltado ao respeito a quem não devia.
  • Aventar:

‘Musseque’, ‘Favela’ ou ‘Tabanca’

  • Der Terrorist:

O triunfo dos medíocres

  • Educação em Especial:

“Nunca confies no conselho de um homem em apuros.” (Esopo)

  • Lusitânea:

NÃO SE DEIXEM CAÇAR SÓ CÁ DENTRO. EM ÁFRICA É MUITO MAIS FÁCIL…

  • Marcha dos Desalinhados:

Emigrem, diz ele

  • Palavrossavrvs Rex:

CORRUPTOS EXILAM-SE. PROFESSORES EMIGRAM

  • Um Povo à Rasca:

SENHOR PEDRO PASSOS COELHO

Recolha do Livresco.

.

Quem acha que uma das classes profissionais mais qualificadas do país deve emigrar, que não tem um projecto de futuro para eles no país, provavelmente é alguém que não está a fazer nada à frente de um governo que se quer credível e respeitável.

A questão não passa pela existência, ou não, de determinados excedentes de mão-de-obra. Passa pela atitude de rendição, de ausência de esperança, de no future. Se os professores não fazem falta (e a eles acrescenta na entrevista em papel outro tipo de profissionais qualificados), se o país não tem lugar para eles na sua visão, na minha opinião é o senhor PM que está a mais entre nós.

Claro que amanhã virá um esclarecimento a dizer que o flato que a senhora do lado deu, não foi ela, foi o vento que passou.

Pedro Passos Coelho deu esta resposta depois de ter referido as capacidades de Angola para absorver mão-de-obra portuguesa em sectores com “tudo o que tem a ver com tecnologias de informação e do conhecimento, e ainda em áreas muito relacionadas com a saúde, com a educação, com a área ambiental, com comunicações”.

Reino Unido prepara plano para retirar britânicos de Portugal em caso de bancarrota

Já voltaremos às declarações do PM a incitar ao êxodo dos portugueses para os trópicos em homenagem à vocação miscigenadora nacional (avé Gilberto Freire!).

Mas por agora não deixemos de evocar a teoria económica marimbeira do deputado da Nação Pedro Nuno Santos, insigne economista de ditosa estirpe.

Já sei… o que ele disse para muitos até foi corajoso e tal, a substância está lá, a forma é que foi infeliz porque nos comícios de província – quando se pensa que ninguém nos ouve fora dali, esquecendo-nos que há novas tecnologias no mais pequeno telemóvel – se podem dizer todas as coisas sem que seja pecado, assim como nas festas de Verão se pode ouvir pimba e continuar a ser melómano clássico.

Só que sou obrigado a admitir que a teoria económica marimbeira não é sequer novidade entre nós, em especial na variante pede-se emprestado, não se fazem cálculos sobre o retorno do investimento tendo em conta os riscos, gastam-se os lucros rápidos conforme dá gozo e depois logo se vê.

A teoria económica marimbeira tem, ao invés, fortes raízes na nossa História pois foi experimentada sempre que Portugal viveu períodos áureos que, sim, existiram, embora escassos.

  • Vejamos a época dos Descobrimentos e da Expansão para Oriente em busca de cristãos e especiarias, em particular aquelas décadas iniciais do século XVI quando a abertura da rota do Cabo parecia ir tornar Lisboa um entreposto mundial para o provir e Portugal o centro do mundo em processo de globalização. Já na altura, a Coroa nacional funcionou na base da dívida pública para fazer investimento. Financiou as armadas da Índia com recurso a empréstimos contraídos junto dos banqueiros europeus (já na altura havia uns proto-alemães cheios de massa, mais uns italianos e flamengos que gostavam de emprestar a elevados juros) e os avultados lucros dos primeiros tempos fizeram a coisa desproporcionar-se. Não foram SCUT, mas os exploradores e navegadores tugas espalharam rotas por todo o Índico e Extremo Oriente, mas os custos da utilização e manutenção do empreendimento revelaram-se incomportáveis ao fim de uns 25-30 anos e a coisa entrou em colapso ainda Quinhentos ia a meio, porque os piratas europeus (espertalhões!) ficavam no Atlântico à espera das naus e sacavam-nos a pimenta, a canela, o gengibre, os perfumes e outras coisas que tais ou então acabavam por provocar-nos tamanhos prejuízos que as contas começaram a inclinar-se. Só que, quais engenheiros, continuámos a insistir até nos enterrarmos de vez com Alcácer-Quibir e a rendição aos castelhanos.
  • Já no início do século XVIII o processo foi ligeiramente diferente, porque do Brasil começaram a jorrar (para além de mulatas e telenovelas mais tarde) diamantes, ouro e outras mercadorias menores sem necessidade de grande investimento ou empréstimos. Só que o nosso simpático e barroco D. João V entusiasmou-se, nem fazia contas às despesas e desatou a construir um palácio do caraças só porque procriou filho homem, convidou todo e mais alguém da estranja para dar espectáculos na Corte quase non-stop (pensavam que os festivais de pop, rock e dance music de Verão não têm precedentes?) e ainda decidiu fazer uma obra (o Aqueduto…) que aliou a utilidade à majestade mas que, a certa altura, se percebeu ser demais para os bolsos que tinham fundo e foi preciso adaptar o real d’água para a população, criando o princípio do utilizador-pagador. E já na altura se verificaram interessantes derrapagens no prazo de conclusão das obras. Pouco tempo depois, andava ainda o Sebastião José a tirar as medidas aos Távoras e caiu-nos um terramoto em cima e não foi no sentido figurado. Ficámos a caminho de alguma penúria, pois tanto ouro e diamantes tinham escorrido para muita coisa, mas não para aquela a que certa facção de economistas chama a acumulação e muito menos para a que permite investimentos reprodutivos na economia.

A partir daí nunca mais nos endireitámos verdadeiramente até a Europa decidir adoptar-nos e colocar-nos vinte anos de subsídios nas mãos para brincarmos.

Se acham que escrevo isto só porque achei giro (é verdade!), podem sempre verificar que durante uns anos até trabalhei na área e a gracinha tem algum fundamento quer na História ela mesma, quer nos meus conhecimentos sobre ela.

E chegámos aqui. E às teorias marimbeiras do senhor engenheiro e de seus deputados (porque ainda são os que ele escolheu…) que, efectivamente, têm tradição entre nós só que antecedendo os períodos de maior colapso nacional.

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