Porque eu não concordo que o Estado não tenha rosto. Para além dos óbvios (Presidente da República, Presidente da Assembleia da República, Primeiro-Ministro, Presidentes daqueles Tribunais importantes que nem sempre gostam uns dos outros) há ainda as pessoas que são responsáveis por actos concretos da administração.

Eu sou responsável pelas minhas aulas. Se algo correr mal, sou eu que estou lá, que assino os sumários e que terei de prestar as devidas contas. O mesmo quando assino uma acta com a avaliação. Não gosto de me esconder atrás da (legal) co-responsabilização de todo o Conselho de Turma.

O mesmo para um médico, enfermeiro, juiz, chefia militar, etc.

Sabemos que há limites e imperfeições na responsabilização, mas tem vindo a ser estreitada a malha destinada a individualizar a responsabilidade em diversas funções.

Excepto naquelas em que o Estado aparece como se fosse uma máquina ex machina a funcionar. Muito habitual no fisco e em serviços cuja função seja captar o dinheiro dos contribuintes ou exigir obrigações financeiras (desde que não seja a empresas com contratos blindados por advogados que, ocasional e casualmente, já fizeram parte do aparelho de Estado).

Porque há sempre uma cadeia alimentar em que o de baixo se escusa com a ordem de cima, tendo sido um primor de execução, e o de cima se escusa com a má execução da ordem dada, que era perfeitinha.

No caso das recentes cartas da Segurança Social vem lá o nome de uma pessoa que – a menos que assine de cruz as coisas e deixe imprimir milhares de cartas com o seu nome – tem uma de duas obrigações: assumir a responsabilidade pela asneira ou, em tempo útil e célere, detectar onde a porca retorceu o rabo e agir em conformidade. Ou então declarar que só fez o que lhe mandaram a partir de mais alto.

Fazendo isso e dando-o a conhecer aos interessados (todos os que foram importunados com a incompetência e/ou inépcia), ganha-se transparência e credibilidade num tempo em que estas são valores de extremo luxo.

A menos que se considere que este tipo de exigência é coisa de crianças porque o Estado não tem rosto quando convém e a responsabilidade é apenas para os idiotas e mexilhões, é o mínimo que se pode exigir a quem queira merecer o respeito alheio.