(RE)PENSAR O SENTIDO DA GREVE – PARA UM OUTRO SINDICALISMO

Proponho-me continuar a reflexão sobre o sentido da greve actualmente, o que permitirá também questionar as concepções sindicais associadas.

Na época clássica do capitalismo, os trabalhadores aprenderam a utilizar a arma da greve para fazer valer os seus direitos, para alcançarem melhores condições remuneratórias e de trabalho, porque tinham a consciência da imprescindibilidade do seu papel. Sem o seu contributo, sem o seu trabalho, as máquinas tornavam-se inúteis e os seus proprietários viam-se na contingência de perder largas somas.

Com a evolução cada vez mais rápida do processo capitalista global, nos nossos dias, assiste-se ao crescimento hegemónico do “trabalho intelectual” (seja do trabalho científico, ou do mais especializado, até às diversas modalidades de saber-fazer mais prático), que vai de par com a utilização cada vez mais intensiva das máquinas, o que significa que o trabalhador, a natureza física do trabalho e a condição deste de medida do valor tendem a perder importância, a que se acrescentará ainda a intrusão de outros factores de desequilíbrio – como sejam a precarização, a mobilidade , a flexibilidade, a deslocalização –, evidenciando assim a subcontratação da totalidade do sistema produtivo. (Conjunto de fenómenos este que, diga-se de passagem, afecta também a concepção mais comum de exploração).

Por outro lado, a concepção originária de greve tinha como correlato político-ideológico um agente revolucionário, o proletariado, que, no seu processo de auto-consciencialização e autodeterminação enquanto classe, via naquela um poderoso instrumento da sua luta emancipatória.

O processo geral de “proletarização” a que estamos a assistir pouco tem a ver com o conceito de “proletariado” marxista enquanto classe produtiva indiferenciada e explorada, desvinculada dos objectos do seu labor. No lugar dele emerge o “consumariado” (Bard, Soderqvist, 2002), uma “classe” de consumidores que tem por referencial axiológico o individualismo hedonista, fragmentando e dispersando o corpo social, com níveis de formação e de integração laboral cada vez mais diversificados e flexíveis, e onde que a ideologia perde a sua pregnância de sistema de interpelação dos indivíduos enquanto membros conscientes de uma classe determinada.

O significado e o alcance dos processos de luta dos trabalhadores no capitalismo digital global – mormente a greve – encontram-se assim profundamente modificados nos seus pressupostos tradicionais. A greve constitui, hoje, e genericamente, uma acção de protesto direccionada principalmente ao grande público, apostando na atenção dos meios de comunicação, o que faz com que a preocupação maior incida mais na exploração do seu impacto mediático do que na força do seu impacto junto dos gestores e proprietários.

Na recente Greve Geral, foi bem notória a preocupação dos agentes no terreno em conferir, sobretudo, visibilidade às suas acções, com os dirigentes a acorrerem aos pontos mais emblemáticos (por tradição) ou com mais significado (maior índice de mobilização), onde invariavelmente os aguardavam repórteres e câmaras para os “directos”, para as proclamações ou para as reacções.

Penso que a forma (e não a fórmula ou fórmulas que muitos pedem…) de alterar este estado de coisas passa, antes de tudo o mais, por investir na repolitização da greve e da intervenção sindical, na reconfiguração do sentido destas, revestindo, não uma forma tão espectacular (a encenação da Greve Geral como um grande espectáculo mediático de protesto de massas…) e ostensivamente ideológica (na ilusão de que haverá ainda um agente capaz de assumir um programa ideológico global…), mas que se preocupe mais com as pessoas mesmas e com os seus problemas reais do que com estribilhos e encenações para a “mobilização”, que discuta e apresente as alternativas e as estratégias para um processo de luta claro e determinado em torno de objectivos que as pessoas reconheçam como seus e pelos quais sintam que vale a pena lutar.

As pessoas já não se revêem nos grandes calendários ideológicos de protestos pré-programados, mas pretendem que as suas reivindicações, que têm por base os problemas que directamente as afectam no seu quotidiano laboral, sejam compreendidas atendidas e, consequentemente, reflectidas nas formas de luta, nas quais estarão dispostas a participar num quadro de proximidade e de pertença.

O que não pode deixar de implicar, também, alterações estruturais e funcionais nos aparelhos sindicais, que estão pensados e arquitectados a partir de uma lógica de cúpula, oligárquica, tributária das concepções centralistas e burocráticas tradicionais, cristalizadas ideologicamente em rituais colectivos de auto-gratificação para consumo dos fiéis.

Como sublinhei no outro post, temos que ter plena consciência de que o que está aqui, fundamentalmente, em causa é uma questão de poder, uma questão que passa pelas estratégias da sua conservação ou então, desejavelmente, da sua renovação e transformação. Uma questão, enfim, crucial para a democracia, para a sua sobrevivência.

Farpas