… não posso aceitar a lógica implícita no tira o que o outro deu a mais, se não for para aplicar a todos.

Escreve hoje o JMF no Público:

Desculpem-me os funcionários públicos, mas quem não achou estranho, ou até aplaudiu, um aumento de 2,9 por cento em plena crise e num ano de eleições, algum dia teria de também pagar a factura. Ela chegou agora, com juros.

Eu não estranhei, nem aplaudi, porque sabia que aquilo era uma tentativa de compra, como outras foram feitas por aqueles tempos. José Sócrates ganhou, mas perdeu a maioria. A compra, com dinheiro do Estado, não funcionou.

Mas… pela parte que me toca já tinha levado um congelamento de mais de dois anos em cima.

E os 2,9% não repunham, nem de perto, o que já perdera.

Mas agora levam-me, de forma directa, cerca de 17% do meu rendimento anual durante dois anos, o que (em cálculos grosseiros) equivale exactamente ao mesmo valor do aumento anual de então.

Mais a redução salarial que já vem de trás. Dos mesmos que deram os 2.9%, mas depois tiraram e3m média 5% e ninguém parece lembrar-se!

Mas o ponto nem é esse.

O ponto é que, se entramos nessa de agora-têm-de-devolver-o-que-receberam-e-não-deviam, não são só os funcionários públicos a terem de devolver dinheiros que escasseiam nos cofres do Estado…

O que dizer dos milhões do BPN que ninguém devolverá, muito menos a BICada que vai ficar com os despojos?

O que dizer das ruinosas negociações em tornos das PPP (não só das estradas, mas também na área da Saúde), de que ninguém agora é responsável e não há accountability que lhes chegue e, em matéria de políticos, já temos o presidente do STJ a dizer que não pode ser?

O que dizer da banca, que quer ser recapitalizada por negócios em que entrou sem nenhuma arma apontada à cabeça? Não acharam estranhos (e quiçá aplaudiram) certos negócios em que se meteram? Alguém os obrigou a comprar dívida grega ou italiana, sendo agora os clientes a terem de pagar comissões e spreads obesos para compensar as péssimas análises de risco que fizeram?

Se NÃO HÁ DINHEIRO como escreve JMF no final do seu artigo de opinião, como é que só não há dinheiro para a arraia-miúda, mas há para outros?

E não falo dos trabalhadores do sector privado, mas dos patrões e afins desse mesmo sector, que continuam a beneficiar das prebendas do Estado e têm uma capacidade de enfrentar os transitórios ocupantes do poder executivo, porque sabem que os têm (e virão a ter) nas suas mãos.