Outubro 2011


Público, 31 de Outubro de 2011, p. 4.

Pelo vistos tornou-se moda processar quem denuncia as habilidezas.

Paulo Campos vai processar Marques Mendes por difamação

Marques Mendes vai ser processado judicialmente pelo ex-secretário de Estado das Obras públicas, a propósito do que disse sobre as SCUT. Marques Mendes afirmou que Paulo Campos devia explicações ao país ou à justiça. Paulo Campos reafirma também que as renegociações dos contratos com as concessionárias das SCUT só trouxe benefícios para o Estado.

Sócrates nega ter telefonado a deputados do PS para voto contra o OE

O fim anunciado da disciplina de História

                                              

            Para raciocinar criticamente sobre um assunto é preciso começar por conhecê-lo. Pretendendo-se formar «estudantes críticos» sem lhes fornecer a necessária formação e treino, apenas se formam ignorantes fala-barato.

Nuno Crato, O “eduquês” em discurso directo, Gradiva, 2006, p. 86

 

                O ministro da Educação Nuno Crato prepara-se, no âmbito da nebulosa reorganização curricular que se encontra em curso, para extinguir a disciplina de História do terceiro ciclo como área autónoma do saber.

Não admira que este economista e matemático de formação assuma tal responsabilidade, pois parece não convir aos políticos, economistas e gestores que moldaram e controlam o mundo neoliberal deprimido de hoje que este seja interpretado a partir de critérios metodológicos e quadros do conhecimento que só a ciência histórica pode fornecer. Decididamente, não interessa a estes diretores e manipuladores da situação que os jovens e futuros cidadãos desenvolvam uma consciência histórica que lhes permita questionar e rebater de forma argumentada o paradigma económico-social e político nacional e mundial contemporâneo.

Hoje os media estão contaminados por economistas-gestores que opinam sobre tudo e condicionam a opinião pública. Esses mesmos economistas-gestores que nunca foram capazes de antecipar a crise — ou não tiveram o interesse ou a coragem para o fazer — e são agora incapazes de nos apresentarem soluções percetíveis para a superar, mas que, à conta dessa crise, invadiram os meios de comunicação social, dominam o mundo financeiro e empresarial e determinam a ação dos políticos. Os mesmos economistas-gestores que, entretanto, resolveram obnubilar o facto de a crise dos subprimes de 2008 estoirar nos EUA (e depois, por efeito dominó, na Europa) devido às desreguladas e criminosas atividades especulativas do setor privado. E que hoje nos vêm dizer que a culpa de estarmos a descer ao inferno tem de ser somente assacada aos gastos desmedidos que os políticos fizeram no setor público – ou seja, em prol de um Estado-providência que, apesar de ter cometido (intoleráveis) erros de palmatória, é afinal acusado de ter desejado praticar o supremo crime de assegurar uma sociedade mais justa e democrática, em que todos tivessem igual acesso à educação, à saúde e à justiça.

É, no entanto, curioso registar que perante a iminência do fim das disciplinas de História e de Geografia no terceiro ciclo do ensino básico, que se prevê serem fundidas numa disciplina híbrida — a qual, pormenor de somenos importância, será doravante lecionada por professores de História sem formação de Geografia e por professores de Geografia sem formação de História —, toda a gente fique calada. Com efeito, sobre este assunto só os sindicatos dos professores denunciaram com alguma fogosidade o risco de esta medida, estritamente economicista e sem justificação pedagógica e cívica, poder contribuir, a curto ou médio prazo, para o despedimento de muitos professores de História e de Geografia contratados ou mesmo dos quadros de nomeação definitiva das escolas e, portanto, com 10 ou até mais de 15 anos de trabalho.

Onde estão os professores de História do ensino básico e secundário? E por onde andam os professores de História do ensino universitário? E onde está a Associação de Professores de História que, depois de ter apresentado uma petição/manifesto contra tal medida, parece ter-se desinteressado do assunto? E o que pensa sobre este tema a sempre tão interventiva Confederação Nacional de Associação de Pais? E os ex-presidentes da República Mário Soares e Jorge Sampaio? E, ainda que mal pergunte, que justificação pretende dar Nuno Crato para assumir a responsabilidade política desta decisão? Note-se, o mesmo que antes de estar ministro advogou, num livro que pretendeu desconstruir, argutamente, os mitos da pedagogia romântica e construtivista, ser «preciso centrar forças nos aspetos essenciais do ensino, ou seja, na formação científica de professores, no ensino das matérias básicas, na avaliação constante e na valorização do conhecimento […]» (O «Eduquês» em discurso direto, Gradiva, 2006, p. 116).

Se a disciplina de História for mesmo banida dos currículos do terceiro ciclo do ensino básico — registe-se, no exato momento do rescaldo das exuberantes comemorações do centenário da Primeira República (1910-2010) —, então sugiro ao ministro Nuno Crato que mande para as urtigas a «formação científica dos professores» e o «ensino das matérias básicas» que tanto defendeu, e opte por idênticos processos para outras disciplinas. Nomeadamente, que trate de fundir a disciplina de Matemática com a disciplina de Ciências Físico-químicas e a disciplina de Português com a disciplina de Inglês. Desta forma, o Ministério da Educação poderá cumprir os seus crípticos desígnios de contribuir para a formação de alunos «ignorantes fala-barato», instruir cidadãos castrados, despedir professores e, evidentemente, poupar dinheiro. A escola pública e o país agradecem.

Luís Filipe Torgal

Nuno Crato e a implosão do do ME(C)

Andámos décadas a ouvir ministros queixarem-se de que não mandavam nada, que a “5 de Outubro” não deixava. Ou melhor, encontraram ali um álibi fácil para justificar não só a inacção própria, como também a falta de coragem para assumirem as responsabilidades e as consequências das suas políticas.

Tornou-se cómodo aos ministros e ex-ministros vangloriarem-se das medidas positivas que tomaram, ao mesmo tempo que atribuíam ao tenebroso aparelho ministerial o ónus pela ineficácia do sistema e pelas consequências negativas, em muitos casos perfeitamente previsíveis, das decisões tomadas a nível ministerial.

É difícil encontrar um legado positivo do mandato de Maria de Lurdes Rodrigues no ME, mas pelo menos uma coisa serviu para clarificar: havendo uma política definida e apoio claro do primeiro-ministro e de todo o governo para a sua execução, não há “aparelho” que lhe resista. A ministra revirou o sistema de alto a baixo, fazendo dos professores os bombos da festa. Está certo que não hostilizou a máquina ministerial, mas a verdade é que não encontrou aqui inércia ou oposição que lhe fizessem frente. E soube demonstrar que era ela que mandava criando o Conselho de Escolas e as famosas reuniões pelo país fora com os directores, ou seja, formas de curto-circuitar eventuais “forças de bloqueio” na administração central ou regional, fazendo chegar as ordens directamente às escolas.

Nesta altura, parece-me não haver grande margem para recomeçar com o discurso das queixinhas em relação ao “aparelho” que é mau e não deixa fazer o que se quer, que num dia é para implodir, no outro já é para bater em retirada para o Palácio das Laranjeiras, deixando os monos burocráticos e eduqueses no seu remanso. Mas a verdade é que o aparelho será o que eles quiserem. Podem fazer leis orgânicas, nomear e demitir chefias, enfim, organizarem-se a gosto. Mas, do bom e do mau que fizerem, serão sempre os políticos os responsáveis. E é também por sermos demasiadas vezes indulgentes em relação a esta prestação de contas que chegámos onde chegámos.

Herdaram a situação económica e política que já todos conhecíamos. Que é má, mas por isso é que foram para lá estes, ex-jotinhas e maçaricos na política profissional na sua maioria. Se as condições fossem outras e houvesse benesses para distribuir, não estariam estes no governo, mas sim os barões e baronetes do PSD e do CDS que sempre se souberam resguardar da chuva, quando ela molha..

António Duarte

De Nuno Crato ao Público.

Porque, apesar das 3 páginas de extensão, quase só trata de cortes, cortes cortes. Medidas identificadas, em estudo ou à espera de ser encontradas para cortar, cortar, cortar, em todos os níveis de ensino.

Falta, quase totalmente, um pensamento sobre Educação que não seja esse ou que não seja sequencial com o que é feito desde 2005.

Inversões, só ligeiras nas Novas Oportunidades. Até na Parque Escolar não se encontram males.

Declaração nuclear, quando interrogado sobre a convivência dos actos com as opiniões anteriores a ser ministro:

Convivo bem [risos]. Eu acho que há uma coerência. O que há de novo em mim é uma consciência das dificuldades do país que eu não tinha, e que o país não tinha, há um ano. A preocupação com a qualidade do ensino, com o conhecimento, com o mérito, com a avaliação, mais exames e mais rigorosos, tudo isso é exactamente a mesma coisa.

Não, não é, senhor ministro.

Não, não é.

A preocupação pode lá estar, os actos não.

Pode haver uma coerência, mas não Coerência. Todos temos direito a legitimar as nossas mudanças de opinião e até podemos usar o método-Sócrates, que é o de dizer que as circunstâncias mudaram de um dia para o outro.

Mas ou temos convicções e andamos informados (o ministro é de formação em Economia, não sabia da situação do país quando aceitou o cargo?) ou então não se percebem bem certas opções.

Nuno Crato destacou-se pela crítica acesa às políticas anteriores, que atacou em aspectos que não se limitaram aos métodos de ensino da Matemática e à linguagem eduquesa.

Infelizmente, na sua praxis como ministro, este Nuno Crato é outro. Um homónimo, que chocou com a realidade nas suas próprias palavras. Com que realidade? Eu acho que não foi apenas com a realidade financeira. Foi com a realidade de um ministério que sabia ser grande, cujos processos se nota que desconhecia, com a realidade das próprias escolas que é muito diversa da que se conhece em visitas e conferências.

E esse choque ainda não passou.

O episódio dos prémios de mérito comprovou que a sua equipa ainda não domina o aparelho e que a opção por implodi-lo é mais de defesa, por incapacidade de o controlar, do que de outra coisa.

E depois temos a solidão ministerial… a reforma curricular deveria ser defendida e fundamentada por uma secretária de Estado de que não sabemos o paradeiro.

Mas sobre as propostas mais específicas de reorganização curricular e de opções quanto a cortes, reservo-me para os intervalos ou o final de um longo dia de aulas.

Fauvismo digital, ou algo parecido, mas com os dedos mesmo.

« Página anteriorPágina seguinte »