Nuno Crato e a implosão do do ME(C)

Andámos décadas a ouvir ministros queixarem-se de que não mandavam nada, que a “5 de Outubro” não deixava. Ou melhor, encontraram ali um álibi fácil para justificar não só a inacção própria, como também a falta de coragem para assumirem as responsabilidades e as consequências das suas políticas.

Tornou-se cómodo aos ministros e ex-ministros vangloriarem-se das medidas positivas que tomaram, ao mesmo tempo que atribuíam ao tenebroso aparelho ministerial o ónus pela ineficácia do sistema e pelas consequências negativas, em muitos casos perfeitamente previsíveis, das decisões tomadas a nível ministerial.

É difícil encontrar um legado positivo do mandato de Maria de Lurdes Rodrigues no ME, mas pelo menos uma coisa serviu para clarificar: havendo uma política definida e apoio claro do primeiro-ministro e de todo o governo para a sua execução, não há “aparelho” que lhe resista. A ministra revirou o sistema de alto a baixo, fazendo dos professores os bombos da festa. Está certo que não hostilizou a máquina ministerial, mas a verdade é que não encontrou aqui inércia ou oposição que lhe fizessem frente. E soube demonstrar que era ela que mandava criando o Conselho de Escolas e as famosas reuniões pelo país fora com os directores, ou seja, formas de curto-circuitar eventuais “forças de bloqueio” na administração central ou regional, fazendo chegar as ordens directamente às escolas.

Nesta altura, parece-me não haver grande margem para recomeçar com o discurso das queixinhas em relação ao “aparelho” que é mau e não deixa fazer o que se quer, que num dia é para implodir, no outro já é para bater em retirada para o Palácio das Laranjeiras, deixando os monos burocráticos e eduqueses no seu remanso. Mas a verdade é que o aparelho será o que eles quiserem. Podem fazer leis orgânicas, nomear e demitir chefias, enfim, organizarem-se a gosto. Mas, do bom e do mau que fizerem, serão sempre os políticos os responsáveis. E é também por sermos demasiadas vezes indulgentes em relação a esta prestação de contas que chegámos onde chegámos.

Herdaram a situação económica e política que já todos conhecíamos. Que é má, mas por isso é que foram para lá estes, ex-jotinhas e maçaricos na política profissional na sua maioria. Se as condições fossem outras e houvesse benesses para distribuir, não estariam estes no governo, mas sim os barões e baronetes do PSD e do CDS que sempre se souberam resguardar da chuva, quando ela molha..

António Duarte