Sábado, 29 de Outubro, 2011


The Stranglers, Toiler on the Sea

Com a resenha dos primeiros debates na Buchholz e um conjunto de páginas com 20 propostas de leituras sobre Educação. Confesso que o meu exemplar foi oferecido, mas é apenas esse o interesse que tenho na divulgação.

Este fim de semana, deixem-se de grelhas, de testes, de preparações de aulas e materiais. Visitem uma boa exposição, leiam um bom livro. vivam para além dos deveres.

Na zona de Lisboa, a não perder…

Olá Paulo

Pela pertinência do tema numa altura em que estamos confrontados com problemas vários peço-lhe caso entenda publicar o link do SPRC no seu blog pois este, é sem dúvida dos mais acompanhados pelos professores.
Eu pessoalmente vou fazer a minha reclamação.
Penso que este assunto deveria ter um impacto a nível nacional pois assim numa época de cortes conseguíamos caso as reduções nos sejam atribuídas mais uns tantos horários para os mais novos.
Obrigado.

http://www.sprc.pt/default.aspx?id_pagina=1347

Abraço


Z.

E não é que, afinal, Portugal é dos países onde é mais elevado o peso da avaliação do desempenho da Função Pública? Se é bem feita, é outra coisa…

Expresso, 29 de Outubro de 2011, p, 22

A saudade nos rostos
insuportavelmente lindos

Hoje o chão está sensível como
a pele dos lábios
debaixo dos pinheiros

em todos os pontos a consciência
está em equilíbrio
no fio da navalha do sim e no fio da navalha do não

[Göran Sonnevi]

Afinal a Finlândia gasta mais 5% do seu PIB com o funcionalismo público do que Portugal? E a Áustria… e a Holanda… todas à nossa frente?

Expresso, 29 de Outubro de 2011, p. 22.

11/11/11 – O FIM DO ENSINO

Em tempos passou um sábio por um reino, deixando todos maravilhados com a sua sabedoria. De tal modo sábio, mas também ousado, propôs ao rei ensinar o seu burro a falar no espaço de um mês, a troco duma quantia acordada. O rei, como gostava de possuir aquilo que mais ninguém tinha, aceitou a proposta. O sábio, passado o mês, vai ao palácio real entregar o burro, uma vez que havia já cumprido o seu trabalho. No dia seguinte, o rei mandou que trouxessem o homem à sua presença, indignado por este não ter ensinado o burro a falar e reclamando o seu dinheiro de volta. Então, com uma atitude humilde, o sábio disse que não devolveria o dinheiro porque tinha, de facto, e ao contrário do que o rei afirmava, ensinado o burro a falar. “Como, se ele não fala?”, perguntou o rei, furioso. Então o sábio respondeu, seguro de si: “Isso não é problema meu. Eu ensinei, ele é que não aprendeu.” O rei era um homem sensato, apesar das suas manias, pelo que deixou o homem ir em paz.

Esta parábola antiga evidencia aquilo que é fundamental para que a aprendizagem aconteça: um lado a ensinar e outro a aprender. Quem não quiser, ou não tiver condições à partida para fazer uma determinada aprendizagem, não a fará. E nesse caso não se podem apontar culpas a quem ensina. Ora, este é o grande drama do ensino na atualidade. Os alunos não são burros, mas se a sua atitude não for a adequada face à aprendizagem, também não aprenderão, e isso não quer dizer que o professor não esteja a cumprir o seu papel. Por vezes ouve-se de alguns alunos e de alguns pais (e não só) que os professores não ensinam. Seria importante que tivessem esta parábola em mente.

Quem teima em atribuir culpas aos professores tem de olhar para esta realidade, uma vez que o comportamento dos alunos é o grande responsável pelo seu insucesso. Então pode questionar-se… A quem compete mudar este estado de coisas? E resposta é simples… É a quem permite que isto aconteça. Não são os professores que ensinam os comportamentos incorretos aos alunos, nem são eles que produziram a legislação que empecilha todo e qualquer trabalho sério no sentido de os disciplinar.

Nas situações mais complicadas manda-se para a rua. (Muitos professores não mandam por causa daquilo que está escrito neste parágrafo.) Para mandar para a rua é preciso preencher papéis. Depois os pais contestam os papéis, às vezes com mais papéis. Para fazer um conselho disciplinar é preciso que haja muitos papéis desses, de preferência acompanhados por outros papéis, acrescentados por quem instaurar o processo, se for caso disso. O conselho de turma propõe uma pena que poderá não agradar ao diretor da escola, nem aos membros do conselho pedagógico. Quer dizer, lá no fundo concordam, mas não decidem de acordo com a sua consciência com receio de que venham outros papéis: dos pais, da sua associação, da psicóloga, da direção regional ou do ministério… que façam tudo voltar atrás. Isso obrigaria a analisar de novo os antigos papéis e a apreciar os novos papéis, a equacionar anteriores receios e os novos receios. No fim, os diretores e os conselhos pedagógicos acabarão, em regra, por decidir aquilo que mais agradar aos pais, que é uma simples repreensão escrita ou o arquivar do processo. Escusado seria dizer que o professor poderá muito bem vir a ser apontado, pelo aluno e pelos pais, como o culpado por tudo isto.

Mas as questões disciplinares são muito mais complexas do que aquilo que se restringe a uma sala de aula. Nas muitas escolas onde os problemas disciplinares não têm o desfecho que deviam ter, os alunos passam de boca em ouvido a mensagem “aqui podemos fazer o que quisermos porque não nos acontece nada”. Isso inclui estragar equipamentos, agredir colegas, insultar professores e funcionários. Obviamente, assim já se percebeu que não se vai lá e que ambos perdem: os professores, porque se desgastam e desmotivam; os alunos, porque não aproveitam como poderiam as aprendizagens que os professores lhes tentam passar.

Não cumprindo o seu papel, o ensino chegou ao fim. Já não é ensino porque deixou de haver educação. O ensino não sobrevive à ausência de educação. Daqui a uns tempos não se chame ensino a “isto”, porque “isto” já não o será. Utilize-se ou invente-se outra palavra. Porque gostamos de números curiosos, podemos propor como data simbólica para o fim do ensino o dia 11/11/11, onde cada 1 existe a par com outro 1. Facílimo de recordar, por muito tempo que passe.

Paz à sua alma.

António Galrinho

Professor

Cavaco Silva descobriu uma coisa engraçada.

Ontem, na Buchholz, alguém (não interessa quem), dizia que parecia que muita gente está à espera que se passe com a sociedade em geral o que se passou com os professores em 2008 e 2009. Uma faísca, uma causa comum, uma circulação do protesto em rede, em grande parte espontânea, que une a contestação, mobiliza quase toda a gente e a traz para a rua, erguendo uma voz que assusta o poder.

Pois…

Mas…

Se o que se passou foi exemplar, também foi uma lição, pela forma como a contestação conseguiu ser encaminhada para a irrelevância de resultados e como foi adormecida em 2010 às mãos dos negociadores profissionais.

Para além de que, na altura, havia do outro lado os rostos óbvios da contestação. Agora há uma espécie de esquizofrenia, em que os responsáveis estão, mas também não estão. E alguns dos que agora querem contestar, estiveram ao lado de muitos que também devem ser contestados. Enquanto os que contestaram e ergueram esse direito, agora o contestam. Porque a coreografia posicional define as convicções e não o inverso.

E a maioria percebe isso. Há quem queira cavalgar uma onda que antes fez tudo por quebrar.

Por vezes, na sua aparente ou real anomia, o povo não é completamente idiota.

Porque sabe que, como a generalidade dos professores que encheram a Avenida da Liberdade, pode ser deixado a si mesmo numa qualquer esquina da pequena história, sacrificado à real politik negocial.

E encolhe-se.

E faz mal.

Mas por outro lado, racionalmente e em termos individuais, os zés-povinhos não podem ser assim tão criticados.

Porque a confiança está irremediavelmente quebrada nos actores. Que são isso mesmo… actores. E querem as massas para servirem de figurantes. Da Esquerda à Direita. Uns querem-nos a contestar na rua a uma voz, os outros quer-nos a sacrificar-nos  uma outra vez.

E o que foi o (bom) exemplo dos professores também serve de (má) lição.

O PAULINHO DA COACÇÃO

OPINIÃO CIENTIFICAMENTE FUNDAMENTADA

Responsáveis! para quando?

E não esqueçamos que este é o mesmo senhor que esteve envolvido no patético episódio da tentativa de aquisição da Joana Amaral Dias para as listas do PS (recordar aqui e aqui).

A este post do Corta-Fitas sobre a falta de um par de professores, cujo autor acha giro enlamear toda a gente a partir da amostra que o incomoda, respondi assim:

Caro Vasco,

Não conheço a sua profissão.
Conheci um homónimo seu, há muito tempo, que trabalhava na Cosmos.
Se é o mesmo, não faço ideia se se lembra de mim.
Mas não é o que vem ao caso.

Diga-me só duas coisas:

1) Qual a proporção de trabalhadores que farão ponte na 2ª feira em comparação com os professores?
2) Qual a proporção de pais que farão ponte, mais os seus filhos, por comparação com os professores.

Sou pai e professor. Não farei ponte e a professora da minha filha também não.
Mas conheço alunos que vão fazer.
Deverei generalizar a partir desta amostra?

São alguns que mancham uma profissão, ou será que são alguns olhares que estão manchados à partida?

Transcrevo, porque é daqueles blogues com moderação, que nunca sabemos quando o comentário aparece.

Acresce que na 2ª feira tenho 8 horas de aulas.

Continuam os critérios da treta.

 

Um debate bastante interessante, em moldes mais abertos e com, pelo menos, uma mensagem muito importante. Se não há mais matérias sobre Educação tratadas ou denunciadas nos jornais, isso deve-se em grande parte ao medo em assumir as denúncias, em fundamentá-las, no fundo, em dá-las a conhecer de uma forma que possa ter cobertura jornalística.

Pelo menos para (quase) todos os presentes terá ficado claro que as teorias de conspiração mediáticas têm escasso sentido neste momento. Algo que eu já digo há bastante tempo, apesar das naturais excepções e de por vezes se confundir o jornalismo com o comentário.

Estiveram presentes pessoas responsáveis pela Educação na Antena 1, DN, JN, Público e Sol. Pelo Expresso, já tinha referido que a Isabel Leiria não poderia comparecer por razões de saúde e pelo Correio da Manhã, ao Bernardo Esteves não foi possível aceitar o convite que lhe fiz há um mês, por razões de ordem familiar.

Depois houve uns detalhes giros (que até ficaram gravados), que poderão ser comentados posteriormente.

Como, por exemplo, o facto de para alguns jornalistas fazer o trabalho de cobertura da Política ser muito mais simples e calmo do que fazer o da Educação.

Quem impede as suas mãos de nadar

é ele próprio.

Quem puxa para o fundo os seus pés

é ele próprio.

Pegando na sua garganta

afunda-se

no seu próprio lago.

x

Água que flui através das orelhas

irrompe através das narinas

garganta pálpebras

e enche o estômago e os pulmões.

Os cinco sentidos

pela água explodidos.

O mundo continua a correr através dele

numa solidão tão grande

que nem em si próprio tem lugar.

[Gunnar Harding]