Ter um inimigo é importante, não apenas para definir a nossa identidade, mas também para arranjarmos um obstáculo em relação ao qual seja medido o nosso sistema de valores, e para mostrar, ao afrontá-lo, o nosso valor. Portanto, quando o inimigo não existe, há que construí-lo. Veja-se a generosa flexibilidade com que os naziskins de Verona elegiam como inimigo quem quer que não pertencesse ao seu grupo, para se reconhecerem como grupo. Eis que, nesta ocasião, não nos interessa tanto o fenómeno quase natural de identificar um inimigo que nos ameaça, quanto o processo de produção e demonização do inimigo. (Umberto Eco, Construir o Inimigo e outros escritos ocasionais, Gradiva, 2011, p. 12)