Hoje no Expresso temos uma prosa de Valter Lemos em defesa das Novas Oportunidade e atacando Nuno Crato por ter mandado fazer uma avaliação do projecto. Diz Valter Lemos que a Universidade Católica (leia-se a equipa de Roberto Carneiro que descobriu a elevação da auto-estima com único grande argumento em defesa das NO).

Não me interessa nada a disputa política, mas sim a conceptualização que Valter Lemos faz em torno das críticas à NO.

Sim, a conceptualização… nada de (sor)risos malandros.

Porque Valter Lemos repete o argumento de ser o ciúme social uma das principais razões para as críticas feitas às NO.

Sim porque Valter Lemos e Luís Capucha (para além de lídimos exemplos de uma certa postura capilar)  são os principais representantes e arautos do conceito de ciúme social, um conceito inovador que ainda não entrou nos digest e reference handbooks da Teoria Social mas que para lá a passos largos.

O conceito é de uma desarmante e arrasadora simplicidade: as pessoas criticam as NO, porque nelas há quem consiga certificados de níveis de escolaridade de forma rápida e com base num processo que valida competências sem que existam produtos a comprovar, na prática, essa mesma competência. Os críticos das NO são, portanto, ciumentos da enorme escalada social que tais certificados (em papel) permitem aos certificados (pessoas).

O aspecto mais curioso desta teorização hiper-pós-moderna é que atribui esse ciúme social não pessoas sem certificação, que não têm o que as pessoas certificadas têm, mas sim a quem já percorreu o trajecto normal de certificação académica, obtendo-a em muitos casos com distinção. Ou seja, atribui a licenciados e doutorados um ciúme social pelo facto de milahres de pessoas passarem a dispor de um certificado da escolaridade obrigatória ou do 12º ano.

Isto é uma conceptualização que empurra os nossos paradigmas epistemológicos até aos seus limites, porque contraria toda a lógica que estamos a habituados a seguir, ou seja, que o ciúme ou inveja parte de quem não tem relativamente a quem tem algo.

Até ao momento, poderia acreditar-se que seria o ciúme social a ditar que algumas mentalidades tacanhas e traumatizadas pelo seu próprio passado desenvolvessem um projecto de obtenção de diplomas fast lane de modo a acederem ao patamar daqueles que sentiam ter ascendido a uma posição de privilégio, invejável.

Mas não, Valter Lemos conduz-nos num temerário trajecto com contornos ontológicos insuspeitados, em que o ciúme social funciona – penso estar a usar o termo correcto, mas hesito, porque este campo teórico é extremamente complexo e a terminologia muito sofisticada – às arrecuas: é quem tem algo que tem ciúme de quem não tinha e passou a ter, mesmo que esse algo nem se aproxime do que já tem.

Na sabedoria convencional, as críticas às NO seriam encaradas como uma forma de tentar perceber se os enormes quantitativos de dinheiro envolvidos no aparato certificador e propagandístico se justificam, se os seus efeitos na sociedade são mensuráveis, assim como na elevação do nível de vida (via melhoria da condição laboral) dos novos diplomados.

Mas no novo paradigma Lemucha (em homenagem aos seus criadores) as críticas às NO não passam de ciúmes de elitistas licenciados e doutorados que querem manter o povo na ignorância e detestam que sejam obtidos certificados de 9º e 12º ano à paletes, pois agora estes certificados são todos coloridos e impressos com belos equipamento a laser e vistosos logotipos, enquanto antes os certificados equivalentes eram em vetustas folhas de papel azul pautado e carimbados com um selo branco que mal se via.

O mundo pula e avança, como o sonho de uma criança. Valter Lemos compreende isso. Os ciumentos sociais, não!

Nota final: a ilustração que acompanha a proa de Valter Lemos, só por si, de um sarcasmo demolidor.