Longe vão os tempos de criança, em que aos passeios e brincadeiras juntava horas de estudo e leitura. Gostava de o fazer. Era uma competição comigo mesma, testar os meus limites, ultrapassá-los. Não sei o que é uma negativa, nem na escola nem na Universidade. Basta perguntar a qualquer um dos meus professores e este facto ficará confirmado. Prémios de melhor aluno, cincos, média de dezanove no secundário, 18 e 19 nos exames nacionais, no tempo em que os 20 eram nulos ou uma raridade. Segue-se a Universidade do Minho, um estágio de 18 valores, média de curso de 17. No final, o Prémio Universidade do Minho, entregue ao melhor aluno de cada curso.

Longe de mim imaginar que a vida profissional se fecharia para alguém que tanto lutou para ultrapassar limites. Naquele que seria o meu primeiro ano de trabalho inventaram que os finalistas não podiam concorrer. É fácil saber o ano, pois foi o único em que esta medida vigorou. Nove meses depois consigo a minha primeira oferta de escola e em Setembro desse ano integro os docentes que estreiam as AEC. Nesse ano, devido a uma fórmula que entretanto foi alterada com a passagem de recibos verdes a contrato a termo (já não beneficiei da nova fórmula), 32 horas letivas semanais em três escolas deram direito à contagem de 220 dias de serviço. Parecia mentira. E assim se repetiria por mais 2 anos, conciliando AEC e formação, aproveitando o facto de ser solteira e sem filhos para poder trabalhar das 9h às 22h. Este trabalho em demasia acabaria por dar os seus frutos quando consigo a minha primeira colocação em bolsa, já em meados de Outubro, uns anos mais tarde. Nesse ano trabalho até ao dia 19 de Junho, último dia de aulas, a minha filha viria a nascer no Domingo, 21 de Junho.

Não me venham dizer que a classe docente só sabe ‘meter gravidez de risco’ para não dar aulas. Eu cumpri até ao final. No ano seguinte, em meados de Setembro já tinha colocação. Colocação essa que seria renovada por mais um ano, não fosse um destacamento. Voltei às bolsas, consegui em Outubro. Nessa bolsa, docentes menos graduados ficaram nas minhas primeiras opções. Tentei ligar, em vão, para a DGRHE. Nessa altura, as colocações em bolsa saíam à sexta-feira pelas 18 horas. Precisamente na altura em que os contactos da DGRHE já não estavam disponíveis. Teríamos de aceitar durante o fim-de-semana. Aceitei. Na segunda-feira de manhã, depois de estar em casa com a chamada em espera mais de uma hora, ligo para a DGRHE através de uma escola. Atenderam de imediato. Expus o meu caso. Ironicamente respondem: ‘ó colega, apesar de sair à sexta-feira, a colocação é feita logo que os horários são enviados. Ou seja, se pediram o horário onde ficou às 9 horas, é lógico que não vai ficar no que outra escola pediu às 10 horas’. Sistema totoloto, portanto. Com a vantagem de poupar uma semana de salário, visto que mesmo quem ficou à segunda, só sabe à sexta, para se apresentar à segunda seguinte. Por incrível que pareça, consigo contactar a docente que ficou com o horário que, por justiça de graduação seria para mim. Essa colega, residente na área para onde eu ia dar aulas, ia recusar o horário onde eu queria dar aulas, visto já ter ficado colocada em oferta de escola.

O tal horário voltou para a bolsa na semana seguinte, mas de qualquer forma não seria para mim, pois se recusasse este, saía da bolsa. Não havia saída. Já casada e mãe de uma criança de um ano, lá fui despender 350 euros mensais em viagens. Mas mais esse ano de sacrifício e a classificação de desempenho (que nem deveria ser contabilizada), dariam para este ano ficar numa posição mais confortável. Parece que me enganei.

Em resposta ao “psicodrama dos concursos” (http://www.profblog.org/2011/09/o-psicodrama-dos-concursos.html), para que a sociedade em geral não pense que os professores contratados precisam de tratamento psicológico face à desconfiança que têm demonstrado relativamente ao funcionamento dos concursos (até poderíamos precisar, visto que todos os anos tudo é stress, tudo é um mundo de caras novas, de alunos, de colegas, de burocracias que divergem segundo a máquina orgânica de cada estabelecimento de ensino), escrevo:

“Tirei o meu curso na Universidade do Minho com 17 valores. Não me parece que seja um estabelecimento de ensino inferior. O que é certo é que não falando da bolsa, onde se é ultrapassado porque os horários anuais surgem como mensais, posso muito bem falar das ofertas de escola. Será que as escolas estão de facto a selecionar bem? Será que o critério “serviço prestado no agrupamento de escolas de Matosinhos Sul no ano letivo 2010/2011” diz algo sobre o valor de quem concorre? A mim só me diz que pretendem manter quem lá esteve, sem querer saber se quem concorre é melhor ou mais adequado à função. Eu sei que se criam laços entre as pessoas, eu também sei o que é estar um ano em cada escola e no final despedir de todos porque é mesmo uma despedida. Mas esses laços não deveriam dar azo a injustiças. Neste caso concreto de Matosinhos, eu, 4xx, fui ultrapassada e muito. Ficou colocado o 1xxx. Eu com 17, a outra pessoa com 13. E relembro que o meu 17 não é de uma qualquer universidade, como referi anteriormente. No Cerco ficou o 15xx e o 15xx. Com 12 e com 15. Mais nova do que eu, um terço do meu tempo de serviço. Em Baião fica o 1xxx. Em Sande o 7xx, em Cinfães o 8xx. Estes horários eram até 31 Agosto e de 22 horas. Os tais que surgiram em finais de Agosto. Gente com a vida tranquila. Agora o Ministério vem dizer que a culpa é das escolas. Não me parece que centenas de escolas possam estar a mentir.

Mas podemos facilmente resolver o problema desta ‘guerra’ que o Ministério pretende criar com os professores contratados. Somos ou não somos necessários? Anos e anos a fio a contrato? Sugiro, para mal dos alunos (mas parece que é o que o Ministério pretende) que se faça o que um docente sugeriu no Facebook: assinamos o tal contrato mensal que nos querem impor, e na hora de renovar, não renovamos. Vamos trocando de escola mês a mês. Pode ser que os alunos e os seus Encarregados de Educação gostem que eles tenham nove ou dez professores no mesmo ano. A qualidade do ensino, com esta medida do ministério, estará certamente assegurada. É o que dá inserir horários para um mês pelo motivo “Aumento de Turmas”. A turma aumentou esse mês, no seguinte possivelmente mandam os alunos de férias para casa. Inacreditável.”

Inacreditável mesmo. Como é inacreditável ter concorrido para as AEC e também não ter ficado, quando na lista do Ministério da Educação seria a primeira dos que lá constam. Mas parece que não trabalhei lá nos últimos dois anos. Ups.
Há escolas onde os critérios justos mandam mais que a “cunha”? Há. Há escolas onde as ofertas de escola são um concurso público e não um ‘concurso-fantasma/nomeação’. O problema é que os horários são raros e quase sempre de 6 horas. Aceitando esses, saímos da Bolsa de Recrutamento, pois temos um governo que acha que trabalhar 6 horas por semana é mais que suficiente.

Ficar resignada? Receber o subsídio mas perder o tempo de serviço? Ou fazer o que já devia ter feito há muito tempo? Deixar de ilusões, de querer fazer aquilo que gosto, e escolher outra profissão? Mais mês, menos mês… a decisão surge.
Cumprimentos aos docentes contratados deste país, aos meus colegas que partiram para a Madeira, aos que ficaram na segunda-feira em horários precários em Lisboa e Sintra, tendo casa para pagar no norte, à jovem que se atirou à tarefa e foi para o Algarve. Felizmente não têm filhos, dificilmente teriam uma vida familiar digna nestas condições. As minhas palavras finais vão para aqueles que, como eu, estando no início das listas de graduação, continuam improdutivamente em casa quando poderiam ser produtivos. Conheço muitos desses, professores excelentes que deram uma dinâmica às escolas por onde passaram, que deixaram marcas nos alunos e colegas de quadro. Alguns não sabiam ainda o que era estar desempregado. Mas anos extraordinários, com cortes a torto e a direito, geram situações extraordinariamente invulgares.

C.L. (sei lá se inventam o critério “só pode dar aulas quem é a favor de tudo o que se faz no Ministério da Educação”)