Nem vale a pena falar da continuidade de muitas das políticas. É tudo óbvio, a fórmula é a da troika, pelo que a diferença será sempre mais na forma do que na substância.

E quanto à forma o que temos?

Com os governos de Sócrates tínhamos um conjunto de ministros meio apagados, um primeiro-ministro super-estrela, de peito feito a enfrentar tudo o que era antagonista com agressividade, e um par de ajudantes para as aflições (Teixeira dos Santos para as más notícias, Pedro Silva Pereira para as repetições e eco).

Com Passos Coelho temos uma relativa inversão das coisas: temos uns quantos governantes a fazer declarações mais ou menos tonitruantes (bem… Álvaro Santos Pereira é capaz de ser o único…), um primeiro-ministro a resguardar-se e a apresentar sempre uma postura simpática e dialogante, mantendo-se os dois ajudantes para as aflições (Vítor Gaspar para as más notícias em 33 rpm, Miguel Relvas para explicar tudo e mais alguma coisa, encontrar facturas esquecidas e malabarismos diversos).

A herança maior é que os anos de governação de Sócrates empurraram o limite da tolerância e resistência até aos limites do imaginável e agora já se dá por aceite e adquirido o que em outros tempos despertaria imediato protesto, mesmo que apenas vocal. Santana Lopes encena dúvidas quanto à aceitação do cargo de provedor da Misericórdia e ninguém se chateia. os caricatos serviços secretos que temos andam em fretes de alcova e, tirando os concorrentes da Ongoing, ninguém parece perceber que o que se passa é gravíssimo, a começar por um Presidente da República que passou apenas a existir no Facebook.

António José Seguro adormeceu ainda mais o PS, o próprio ainda a recuperar do atropelamento que sofreu durante todo este tempo e a oposição limita-se a fogachos de alguns deputados do PCP.

Digamos que, com um ambiente destes, o terceiro mandato de Sócrates está a decorrer com uma calmaria inesperada.