Para culminar o regresso ao passado de tudo isto, temos agora a percepção de que a ADD se tornou uma nova área de negócio para alguns interesses instalados.

Se no caso das editoras especializadas, se compreende a mercância (a rimar com ganância), já no caso de outras organizações é algo problemático que se opte pelo argumento do mercado para justificar o que, do ponto de vista ético e deontológico, há muito é uma zona nebulosa da acção dos sindicatos.

Lê-se João Dias da Silva no DN, acerca da possibilidade da FNE (via ISET) facultar formação para avaliadores das aulas assistidas e não se quer acreditar:

O mercado é livre e cada um poderá escolher a instituição que preferir. (…) O que a FNE deseja não é dar mais trabalho ao instituto, é que as pessoas tenham formação.

Bollocks, lá diria qualquer moderado herdeiro do punk.

Não é recente, não é de agora, que de uma forma legítima do ponto de vista das leis em vigor os sindicatos criem organismos deles dependentes para fornecer formação aos seus associados e a outros clientes interessados. Nos anos 90 esta prática generalizou-se, oleada com verbas comunitárias. Foi ver os planos de formação de centros dependentes dos mais variados sindicatos e os formadores que lá se abastaram anos a fio, dando muitas vezes formação quando tinham isenção de horário por serem dirigentes sindicais. Isso e um amiguismo evidente ao olhar de todos no recrutamento dos formadores bem remunerados, sendo ainda maior do que o que se instalou nos centros de formação ligados ao ME e às escolas.

Não vale a pena dizer que não sabemos. Foi assim que a formação contínua se deformou, enquanto engordava. Para bem-estar de todos os actores em presença com uma voz activa. Os governos compraram uma paz sindical assinalável, rompida apenas por aqueles tangos anuais em torno das negociações salariais e respectivas greves e batucadas à porta do ME para TV ver.

Se nos acomodámos? Sim. Acomodámo-nos todos ou quase todos. A vida corria fácil e ninguém, ou quase ninguém, desalinhava de um arranjo que a todos convinha.

Só que os tempos mudaram, os dinheiros encurtaram e o ambiente entre o poder político, os sindicatos e a classe docente mudou radicalmente durante uma mão-cheia de anos.

É impossível fingir que nada se passou e que podemos voltar ao que foi, sem que se aponte claramente o dedo a quem pretender ganhar algo com aquilo de que diz discordar e ser mau para is seus representantes.

Se algum sindicato – com o cinismo e oportunismo mais hipócrita – quer financiar-se à custa da formação de avaliadores no âmbito desta ADD, é bom que o assuma, sem argumentos da treta.

Se algum sindicato que isso fizer, a acrescentar ao acto, ainda tenha no currículo a assinatura de um acordo com o MEC sobre a matéria, ainda maior deverá ser a dose de alcatrão a distribuir pelos seus responsáveis e formadores.