Têm razão os que protestam por a ADD estar a centrar a discussão em termos de Educação Não-Superior.

Mas…

Em tempos, quando se discutia, ou tentava discutir, outro tipo de assuntos, achava-se que a ADD é que envenenava tudo e a divisão na carreira e tal e coiso. A divisão terminou (mais ou menos), ficou a ADD. Discutir-se a gestão escolar? Náááá… isso é muito abstracto. Discutir-se a legislação que ia saindo? Népias, que ser professor não é isso. Discutir a reforma curricular? Só se não cortarem na minha disciplina. E por aí fora.

Os contratados têm toda a razão. Foram e são carne para canhão. Tenho mais de uma década de contratado, sei o que passei, nem sequer havia subsídio de desemprego. Mais de 10 miniconcursos, ali na fila, sem poder concorrer pela net, sentadinho. Professor do quadro aos 40, que proeza, mais um bocadinho e nem carecia de avaliação. Todos passámos por muita coisa.

Os contratados foram as cobaias da ADD a contar para a graduação profissional? Pois foram. São o elo mais fraco? Pois são. Sempre aqui disse que a luta não era, em primeiro lugar, deles. Que se deveriam resguardar. Estavam demasiado vulneráveis.

O desemprego vai atingi-los brutalmente’? Vai, sim senhor. Têm razão. O que podemos discutir acerca disso? Vamos colocar-nos, como alguns, a clamar contra as políticas globais neoliberais e a chamar nomes a este e ao outro? Isso resolve exactamente o quê? Resolveu alguma coisa no passado? Ninguém aprendeu nada com a forma como o pessoal de EVT conseguiu defender os seus direitos?

Pensem nisso.

Mas também podemos falar de outras coisas importantes, se calhar muito mais, para a vida quotidiana de todos, de contratados a professores com contrato por tempo indeterminado (adeus velhos efectivos).

Podemos falar dos purgatórios e pequenos ou grandes infernos em que se transformou o quotidiano em muitas escolas. Não apenas por culpa da tutela ou dos alunos. Também de nós próprios e daqueles que nos cercam, alguns com poder de mando.

Será esta a altura para tocar em certas podridões a céu aberto?

Os joguinhos, os esquemas, os favores, os clientelismos, as protecções, as pressões, as chantagens a coberto ou descoberto? Os silêncios cómodos ou incomodados? Os vira-casaquismos? As adesivagens ziguezagueantes? A mesquinhez que nos entra pelos olhos dentro, depois pela pele até quase querer tomar conta de nós e que há uns tempos se transformava em mal-estar docente nas teses das Ciências da Educação e agora é stress ou burnout e depressões ao entrar dos quarenta ou antes, maleitas diversas sem cura previsível, um desânimo generalizado?

Se quiserem discutir essas matérias, pessoalmente mais dolorosas para muita gente do que ba ADD, tenho o maior gosto e prazer em fazê-lo.

Mas vai doer. Porque há muita coisa feia por aí, mal escondida e por vezes às escancaras e muita outra coisa que nos entristece, de tão deprimente.

Vai doer muito.