Santana Castilho continua, no Público de hoje, o seu acerto de contas com Pedro Passos Coelho e Nuno Crato, a quem agora designa, quando acha giro, por Nuno Arrobas, com um estratagema retórico digno de um recreio de Primária.

Mas o que é pior é a forma como exalta os seus dez princípios sobre a ADD que estão impressos nas páginas 99-100 do seu livro mais recente, enquanto procura derrubar os cabalísticos sete daquele que ficou como MEC em vez dele.

Faz ataques descabelados (sim , eu sei, também estou a usar um truque retórico básico, mas mais ao nível do 2º ciclo), esquecendo a insuficiência da própria obra.

Atenção ao auto-panegírico:

A desonestidade política de um dos partidos que agora representa no Governo, o PSD, não o obrigava a si, Nuno Arrobas, ministro, a dar a pirueta final duma sucessão sem escrúpulos. O senhor tinha dez princípios orientadores inscritos no programa eleitoral do PSD. Os mesmos assumidos na proposta de lei apresentada na Assembleia da República pelo respectivo grupo parlamentar. Aqueles que eu escrevi, a pedido de Passos Coelho, e que ele exibiu com orgulho quando interpelado por Clara de Sousa na SIC. Ao ignorá-los agora, olimpicamente, o senhor mostrou que não sabe nem quer aprender. Porque aqueles princípios eram um expediente certo, política e tecnicamente, para acabar com o monstro kafkiano.

Santana Castilho ensina Nuno Crato e o país. Se não fosse ele, andaríamos num lodaçal de ignorância sobre ADD. Mas se formos ler os princípios enunciados por Santana Castilho o que encontramos?

Vejamos logo o segundo:

O modelo de avaliação e classificação do desempenho das escolas e dos professores deve prever um sério escrutínio técnico, de natureza pedagógica e científica por parte das associações representativas da comunidade educativa, de modo a garantir-lhe credibilidade e exiquibilidade.

O que quer isto dizer? A sério! O que são associações representativas da comunidade educativa? Associações de Professor de cada disciplina, se entendermos comunidade educativa no sentido lato? E se a entendermos no sentido restrito de cada comunidade educativa local?

O quarto e quinto princípios baralham-se entre si. Num, o desempenho da Escola é o somatório do desempenho dos seus actores (quais são? apenas professores e alunos?), no outro o quadro de desenvolvimento da escola deve ser o referencial da avaliação e não se confundir com a multiplicidade dos percursos individuais dos seus docentes. Não é difícil perceber que estes dois princípios se contradizem, quando encarados numa perspectiva prática.

Passemos ao sexto:

A avaliação do desempenho deve visar a gestão do desempenho, isto é, ter como resultado prioritário a determinação dos obstáculos ao sucesso do ensino e a sua remoção, numa lógica formativa.

Isto é eduquês tanto na linguagem como no conteúdo. No fundo, o que se pretende com esta lógica é remover os obstáculos ao sucesso através da avaliação do desempenho do professor. É a lógica do professor-culpado, mesmo se com véus.

O sétimo princípio (como outros) é exactamente igual ao proposto agora, ou seja, a dilatação dos períodos de avaliação para a duração dos escalões na carreira.

O oitavo princípio é a defesa de uma avaliação externa preponderante, removendo os malefícios da classificação inter-pares.

No nono temos mais uma proclamação tão vaga quanto as que se criticam:

A avaliação e a classificação do desempenho [todos os princípios começam assim] devem ser consequentes, num quadro de correspondência entre autonomia e responsabilidade.

O que quer isto dizer? Vá lá, a sério, meus caros defensores de Santana Castilho a Ministro, Já!, digam-me o que significa isto…

Por fim, o décimo princípio é a defesa do papel de uma IGE que todos sabemos não ter meios para fazer o que se enuncia:

A avaliação e (…) devem constituir referenciais dominantes da acção de supervisão formativa da Inspecção-Geral da Educação e instrumentos axiais de uma política de garantia da qualidade do ensino.

Desculpai-me todos aqueles que acham que SC é a quinta essência da clareza de princípios em matéria de ADD. Lamento, mas para mim isto é conversa tipicamente dos anos 90 coutistas e benaventistas, só que deslocada da avaliação dos alunos para a avaliação dos professores.

Isto é o eduquês aplicado à ADD. Os referenciais, os axiais, as supervisões formativas e outros vazios que tais.

Nuno Crato não precisa que o defendam, tem obrigação de o saber fazer e de muito mais coisas do que isto. Não é isso que aqui faço.

O que faço é demonstrar a mistificação que Santana Castilho insiste em repetir, atribuindo-se a si mesmo um monopólio de clareza de princípios que em nenhum ponto é possível encontrar nas suas ideias, pelo menos nas que apresentou impressas há poucos meses.

Se o caminho de Crato é vago e indefinido, o de Castilho apenas lhe acrescenta três pontos.

Numa perspectiva de formação supervisionada, desculpem, de supervisão formativa.

Axial.

Mas não de axila.

Deixemo-nos de tretas, ok?

Nota final: o papel que PPC mostro a Clara de Sousa era um A4 com amplas margens brancas? Já tinha visto um parecido, antes, em outra ocasião.