Não sei se repararam mas há um governo de Centro-Direita em Portugal que, mal chegou ao poder fez grande parte daquilo que tinha dito não fazer. A começar pela coisa fiscal que é uma espécie de graal dos liberais. Continuando por não culpar o passado, que afinal se descobriu colossal, mesmo já se sabendo que era. E outras coisas, como nomeações manhosas, com base num critério muito subjectivo de quem serão os melhores.

No fundo, fizeram como Barroso, mas com linguado em vez de cherne.

Mas, mais complicado para um governo de Centro-Direita, desbastou o subsídio de Natal do pessoal sem dó nem piedade ne o Carmo continuou como estava e a Trindade também ficou calma.

No Parlamento, o programa do governo passou sem moção de rejeição e a Esquerda – a (na altura ainda não muito) segura e a radical – ficou quietinha, dizendo apenas o q.b. para fazer prova de vida. O PCP assumiu a liderança do protesto – o António Filipe e o Honório Novo apresentam sempre uma consistência interessante – enquanto o Bloco tentava perceber se eram necessários apenas dois táxis ou se, para evitar multas, levavam três. Dizendo alguns deputados que gostam de transportes públicos e de bicicletas, optaram por dois. O Partido de Sócrates a ser quase de Seguro optou por discutir qual a melhor laca no mercado numa perspectiva de relação ambiental/preço.

A seguir ao programa de governo veio o corte no 13º (ou 14º?) mês e os decibéis ficaram a um décimo do que seria habitual num Parlamento de outros tempos. Moção de censura? Não que de nada serve.

Os sindicatos mantiveram-se cordatos e o povo até respondeu em sondagem que compreendia os rodopios e o facto de lhes irem ao bolso para pagar os milhões do BPN e os disparates das PPP que quase faliram o Estado e a Banca.

Um pouco à moda do Antigo Regime, foram-se os brioches e ficou apenas pão, com a manteiga escassa e em alguns casos esparramada no chão.

O país mostra como o deixou Sócrates, sugadinho até ao tutano de ânimo, de alma e de desesperança. Portugal está quase em estado de coma. Está anestesiado. Não é o governo que está em estado de graça, o país é que interiorizou a desgraça.

E aquietou-se. Já só quer que o deixem dormir a sesta, na esperança de que o pesadelo desapareça um dia. E sonha com isso.