Os (maus) resultados dos exames de 9º ano em Língua portuguesa e Matemática podem ser explicados de muitas formas e envolvendo diversas variáveis,gerais e específicas, globais e locais, mas eu prefiro encará-los sob duas perspectivas:

  • Em primeiro lugar como um final de ciclo em que  sucesso era fabricado a partir do modelo de exame e dos critérios de classificação. As declarações do actual responsável pelo GAVE são de molde a pensar – sem grande imaginação – que antes a coisa era feita com menos rigor e com mais preocupação – como disse uma vez o seu antecessor nas páginas do expresso – em não estragar a vida aos alunos. Este final de ciclo com a queda estrepitosa dos resultados do 4º ao 9º ano (faltam os do Secundário) marcam o fim de um período de meia década de enganos e a queda na realidade e na necessidade de repensar tudo isto. Desde logo, se assim houver coragem, comparando classificações internas e externas e encarando as coisas como são. E partir daqui para um outro modelo – paradigma – de produção de sucesso que se preocupe com as aprendizagens e não apenas com os muros. Como no futebol, é difícil colocar uma equipa a ganhar tudo quando ainda está em formação. Nem o Mourinho.
  • Mas, e estas são as boas notícias, abre-se neste momento uma janela de oportunidades (até uso a novilíngua e tudo)  para alunos e professores porque pior será complicado fazer. A partir daqui é possível tentar construir um crescimento sustentado, reavaliar metas de sucesso estabelecidas no tempo (recente) da outra senhora e encarar a Educação e o Ensino como assuntos sérios, políticos no sentido nobre do termo e não como uma arma de propaganda. Já se percebeu que a elasticidade do sucesso com pés de barro é limitada e não consegue aguentar-se mais do que um ciclo eleitoral, nem aguenta um ligeiro abanão no grau de dificuldade dos exames. E temos toda a face oculta do icebergue… pois há disciplinas em que se chega ao 9º ano sem exames e qualquer controle efectivo do que os alunos conseguem fazer num exame que os obrigue a aplicarem-se e não meramente a demonstrarem a competência de serem capazes de se aplicar. É urgente perceber o que se ganhou com o Inglês no 1º CEB. É urgente perceber-se o que os alunos sabem de Ciências e História. Não chega fazerem coisas giras.

É preciso recomeçar, com tempo, com ponderação, sem receio de maus números durante dois a três anos. Um trabalho a sério nesta matéria só será passível de ser visto num horizonte de 3 a 5 anos.

Haja coragem para isso e não a cedência aos histrionismos e instrumentalizações da Educação para efeitos de Propaganda.