Domingo, 3 de Julho, 2011


… só não achou foi o pote de ouro.

Mário Nogueira disse, ainda na RTPN, que uma coisa é uma pessoa opinar sobre Educação em escritos, outra ser ME e colocar em prática as ideias contidas nos livros escritos.

Pois…

Eu também acho que uma coisa é uma pessoa opinar sobre os anseios dos professores em comunicados, outra ser professor com horário completo e testar na prática os conselhos contidos em tomadas de posição de gabinete.

Suspender e reavaliar o encerramento de escolas do 1º CEB e a constituição de novos mega-agrupamentos é uma boa decisão. Os mas de Mário Nogueira na RTPN há pouco eram desnecessários. Só facto de travar, mesmo que seja temporariamente, este disparate é uma boa notícia e a prova de que o acordo com a troika não implica continuar necessariamente com esta política cega e indiferenciadora.

No resto MN até esteve bem, mesmo quando juntou os 6 anos de Sócrates no mesmo embrulho, quando sabemos que o último ano e meio foi de namoro da Fenprof com o ME.

Já não bastava ter sido escrito em 20o8, era necessário Ricardo Arroja repescá-lo, com orgulho, em 2011.

Eis parte de uma visão absolutamente caricata do que deve ser a Educação e o trabalho sustentado entre alunos e professores:

Tudo isto é demasiado disparatado. Desde a forma automática (e não demonstrada) como se determina a “elite da corporação” até tudo o mais.

isto não existe em lado nenhum do mundo – em particular uma avaliação deste tipo baseada numa rotação anual de professores – mas como demos novos mundos ao mundo, também podemos inovar no disparate (e temos algumas competências na área…).

Também não mereceria grande atenção, caso do Insurgente não tivesse saído já um governante e outros candidatos não andassem por lá perfilados.

É nestes momentos que se nota que o Ramiro está do lado de fora do quotidiano escolar e que, afinal o velho profavaliação era um pretexto.

É claro que a ADD não é o problema central da Educação em Portugal. O que não torna menos urgente a sua resolução, até como sinal de boa vontade para com uma classe docente a quem vão ser pedidos mais sacrifícios e esforços.

Mas, tudo bem, não seria difícil colher declarações do Ramiro contrárias a esta que se segue, nem será difícil encontrá-las no futuro. Chama-se a isto evolução (do pensamento) na continuidade.

Faz bem Nuno Crato não se deixar aprisionar pelas matérias do estatuto da carreira docente e da avaliação de professores. Há tempo para cuidar delas em estreita negociação com os representantes dos docentes que são, como é sabido, os sindicatos. É assim no nosso regime constitucional: há matérias legislativas que obrigam a processos negociais. E o ministério da educação negoceia com os sindicatos. Não negoceia com blogueiros nem como grupos de pressão por mais justos e influentes que eles sejam.
Há, portanto, que saber esperar. Um processo negocial em torno de uma matéria tão fraturante exige tempo e serenidade. Os professores suportaram um modelo de avaliação injusto durante quase quatro anos. Custa assim tempo esperar mais seis meses?
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Claro que eu podia fingir que não li, que não dei por nada (como é o caso de um mail que circula por aí com uma posição na inversa da do Ramiro, a apelar à suspensão imediata da ADD por parte de quem aceitou fazer parte do aparato relator), em nome de uma concórdia que não existe, mas não seria a mesma coisa, estaria a trair aquilo em que acredito e, fundamentalmente, a frontalidade devida a todos os que por aqui passam em busca de clareza e não de ziguezagues.
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Concordo em muita coisa com Nuno Crato e mantenho alguma crença pessoal em Passos Coelho, mas isso não me impede de ser coerente com o que afirmei há meses, semanas, apenas dias…

Ao contrário do que alguns gostam de dar a entender, por eduquês não se devem entender práticas pedagógicas destinadas a dar uma atenção diferenciada aos alunos e a diversificar as estratégias de transmitir conhecimentos, competências e atitudes aos alunos, por forma a eles melhor conseguirem assimilar o que deles se espera ou que aos mesmos garante sucesso nas aprendizagens (e aqui já teríamos um mundo imenso de debate para a verborreia eduquesa).

Por eduquês entende-se, antes de outra coisa, um discurso nevoento sobre a realidade observável, envolvendo-a num manto de (auto)referências e num aparato de pretensa erudição, cujo objectivo essencial é legitimar políticas que assegurem o sucesso através da recusa da utilização de um qualquer padrão que sirva para medir (palavra horrível para muitos) o desempenho dos alunos.

A obra que em seguida apresento (não é por acaso que é coordenada pelo autor de uma das obras do post anterior e contém um artigo do autor de outra) é apenas uma entre muitas passíveis de serem usadas como exemplificadoras deste tipo de discurso, com matizes mais suaves ou mais densas.

Escolhi uma longa citação do artigo de A. M. Magalhães e Stephen Stoer que se pode encontrar nas páginas 37 e 38 da obra. É longa e espirala em torno de si mesma, podendo resumir-se a «tomem atenção às diferenças (culturais, sociais) dos alunos, respeitem-nas e tentem ensiná-los como indivíduos e não como peças de uma engrenagem».

Eu acho que era mais simples, mas citar Rorty (faltou Habermas) é mais giro.

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