Não é raro e cada vez se torna mais comum que à aproximação de uma fase mais avançada da vida, em que a morte surge no horizonte e as doenças, em especial as degenerativas e incapacitantes, se tornam uma quase inevitabilidade, as pessoas tentem ganhar domínio sobre a gestão da sua morte, muito em especial as que não acreditam ser um qualquer divino a tratar dessa contabilidade.

Este livro é um testemunho disso mesmo. Mais do que o medo da morte, percebe-se o medo da doença e a vontade de quem pensa ter conduzido a sua vida querer também conduzir a própria morte. O testamento vital e o  suicídio assistido são, no meu entendimento, questões civilizacionais e fracturantes mais actuais do que outras porque deslocam a discussão das formas de viver para as formas de morrer.

Ainda não cheguei a essa fase. A minha preocupação ainda é – antes de me preocupar sobre a forma de gerir a minha morte, limitando uma vida que sinta sem a qualidade desejada  – a de tentar prolongar ao máximo a vida. Já fui mais desesperado nisso e já não sei se doaria o meu corpo terminal a experiências criogénicas ou parecidas (há sempre que rever o mediano, mas divertido, Demolition man com o Stallone), mas certamente que não me negaria a testar medicamentos experimentais contra certos destinos que assustam (e ainda há dias revi o episódio do Boston Legal em que o personagem Denny Crane faz isso mesmo, isto para não falar nos recentes e negros episódios do House M.D.).

Por isso, a leitura deste livrinho é interessante. Mais do que um livro académico sobre o tema, há que encará-lo como um acto pessoal, como uma espécie de arrumação mental e emocional sobre um tema que assusta. Na bibliografia está muito bem o Patrimony de Philip Roth que, por várias razões, é um livro tocante sobre o tema, no masculino.