Um Doutor entre os meninos (ou de como nem tudo o que parece é)

Não posso assegurar qual irá ser a minha posição como cidadão e, ainda por cima, parte muito directamente interessada (professor do Ensino Público, pai) face à política do novo Ministro da Educação, Nuno Crato. Para além de ter lido o seu livro: «O “Eduquês” em Discurso Directo – Uma Crítica da Pedagogia Romântica e Construtivista» – muitas das suas crónicas, algumas entrevistas e de ter participado em alguns debates em que interveio, não resisto também a contar um episódio em que esteve em “efígie” e para “queimar”. No início do consulado Sócrates/Maria de Lurdes Rodrigues fui, enquanto militante do PS e dirigente Sindical da Fenprof (SPGL), convidado/convocado para uma reunião no Salão Nobre do Rato com a então Ministra da Educação que começou crispada e acabou com a senhora aos gritos, brandindo um livro e perguntando para a “geral”:
– É isto que vocês querem? Parece que querem a Direita?!!!
O livro era o de Nuno Crato, recém saído.
Não só, mas também por isto, comecei a ser-me simpático. E é claro que o PS nunca mais organizou “Encontros” abertos destes. Os próximos já só incluíram três elementos de cada Concelho indicados pelas Distritais e os outros subsequentes foram abertos a militantes em geral e nunca mais contaram com a senhora, mas apenas com o “bulldozer” Lemos que tentava acirrar os ânimos dos “leigos” contra os “malandros” dos professores (um tipo “escolhido a dedo” que veio do CDS e até perdeu o mandato de vereador por faltas). Depois foram anos de posições públicas em que da parte de Nuno Crato imperou a clarividência e o bom senso face a muitos dos disparates, manipulações e embustes levados a cabo pelos governos suicidários Sócrates I com a “Bruxa” Maria de Lurdes Rodrigues e Sócrates II com a “Fada” Isabel Alçada. A diferença está em que uma “Bruxa” é uma “Fada” Má e uma “Fada” é uma “Bruxa” Boazinha.
Não sei, portanto, se vou simpatizar com todas as iniciativas do novo Ministro da Educação e até dou de barato que no actual estado de coisas (Memorando da “Troika”/Bancarrota eminente) a que os defensores estrénuos do Estado Social nos conduziram, não tenha grande margem de manobra. Uma coisa é certa – teve um início auspicioso enquanto político, ele que veio de “fora” acabou por deixar mudos no Parlamento uns jovens deputados do PCP e do Bloco que se esquecem que o laxismo nada tem a ver com a esquerda, ao referir o nome de Bento de Jesus Caraça. Poderia ter referido o de muitos mais, até o do próprio Álvaro Cunhal, mas também Rómulo de Carvalho, Mário Dionísio, Vergílio Ferreira, Joel Serrão, Óscar Lopes, Luís Simões Gomes e tantos outros que fizeram do rigor (não do falso do de “trinta e um de boca”, mas do verdadeiro) e da exigência correlatos sérios da Mestria.
Também os esclareceu quanto à falaciosa opinião de que a pouca exigência (ou nula como na generalidade das Novas Oportunidades – e não vale a pena virem com tretas, pois sei bem do que estou a falar) beneficia os mais pobres.
Proponho até um simples exercício estatístico: compare-se a proveniência económica e social dos jovens que entraram em Medicina em 2010 e, por exemplo, em 1973 ou 1975 (pouco antes e pouco depois do 25 de Abril). Teríamos pela certa, face ao comum das ideias feitas, uma grande surpresa.
Em 1975, em pleno PREC, no Bar da Cantina Velha da Cidade Universitária onde o “estudantariado” se juntava depois do jantar para umas guitarradas revolucionárias e as pessoas falavam abertamente de tudo (uma das coisas belas que, pelo menos durante um certo período encantatório, costumam ter as Revoluções), uma das empregadas da copa desabafou dizendo que, ao contrário dos “meninos”, não tinha vindo para Lisboa estudar, mas trabalhar, porque os pais tinham lá para Trás-os-Montes umas “quintas”, mas “aquilo não dava para nada”.

Um castiço, quintanista de Santa Maria, respondeu de imediato:
– Pois olhe menina, os meus nem “quintas”, nem “quartas” !

António José Carvalho Ferreira