No contexto em que eu ingressei no exercício da docência (segunda metade dos anos 80), a existência de uma prova de ingresso até fazia a sua lógica. Porque as pessoas faziam um curso de Matemática, Engenharia, Direito, História, Literaturas e iam leccionar assim mesmo, sem qualquer preparação ou formação adicional.

Entretanto, nos anos 90, vulgarizaram-se os Ramos de Formação Educacional nos cursos das Faculdades e os cursos especificamente para a docência nas ESE.

Quem não tinha essa formação tinha de fazer uma modalidade de profissionalização (na Aberta, voltando à Faculdade e fazendo um RFE, em exercício ou em serviço). A partir daí a média para concorrer era a combinação da média do curso original, da profissionalização e o tempo de serviço prestado. A última vez que concorri, há meia dúzia de anos, foi assim. É falso que os candidatos sejam ordenados simplesmente pela média de curso. Isso só acontece em alguns casos.

Já neste século, há poucos anos, o ingresso na docência passou a ser possível apenas com a profissionalização feita, acabando-se as habilitações próprias ou suficientes, excepto – pelo que observo – nos nichos nebulosos de certos cursos profissionais, cujas áreas não têm habilitações específicas de docência claramente determinadas e tudo fica um pouco ao critério discricionário das direcções ou de quem manda nisso em certos sistemas escolares feudais.

A profissionalização e os cursos que as concedem são objecto de validação pelo Estado que autoriza o seu funcionamento nas instituições do Ensino Superior, Universidades ou Politécnicos.

Se a formação lá ministrada é fraca? Culpa de quem permite – tal como com as privadas-cogumelo dos anos 90 – que existam cursos criados apenas para salvar o crédito horários de docentes que, em boa verdade, andam a formar futuros professores mas nunca conseguiriam sobreviver um mês numa escola básica ou secundária.

A solução seria avaliar devidamente tais cursos, muitos deles especificamente para a docência e mais nada.

Impor uma prova de ingresso na docência a quem foi formado especificamente para ser educador(a) ou professor(a) é um disparate que apenas entala quem passou cinco anos a estudar e, depois de diplomado, lhe dizem que não confiam na sua formação, sendo que quem lhe diz isso é exactamente quem permitiu que essa formação funcionasse.

Repito um argumento antigo: num ME que inclui ensino superior e não-superior, esta medida é um rematado disparate e é o recurso fácil para quem em vez de enfrentar os feudos académicos prefere lixar quem tem menos culpa se existe uma fraca formação inicial de professores.

Querem ter coragem e ser reformistas? Avaliem os cursos de formação de professores e mandem fechar todos aqueles em que a qualidade do corpo docente e das aulas equivale a um mero despejar de teorias livrescas, com métodos pedagógicos que contrariam aquilo que se exige a qualquer professor médio numa escola básica.