Crónica de uma acção de formação: classificação de exames nacionais

1. O objectivo desta formação foi formatar os professores, à boa maneira tayloriana, com vista a seguirem as instruções do Gave.
2. O modelo de prova não se discutiu, mas é aí que está o problema principal, quando as perguntas já contêm as respostas. Não faço perguntas deste tipo nos meus testes. Já agora não existem nos exames desta minha disciplina uma pergunta de desenvolvimento de grau de dificuldade elevado e devia haver, para que o exame distinguisse correctamente os alunos de elevadas notas. Com este tipo de exame um aluno médio pode tirar uma boa nota.
3. Verificaram-se discrepâncias entre os professores presentes entre 14 e 18, ou seja, o aluno pode ver a sua nota variar em 4 valores conforme o corrector que lhe calhe (dados para a formação em que estive presente e para correcções de perguntas da parte sem escolha múltipla).
4. As discrepâncias maiores têm a ver em como classifica a resposta de um aluno que copie o texto, em que os professores dos centros urbanos não deram cotação e os da periferia deram o máximo. Este foi o grande debate, de facto está nos critérios gerais que o aluno deve «produzir» um texto, mas tem sido prática aceitar as cópias integrais. Estou de acordo que o aluno deve produzir um texto próprio com introdução, desenvolvimento e conclusões, mas tenho consciência que esta exigência favorece os alunos com capital cultural acumulado no seio da família. Por outro lado, penso que só com exigência a escola serve de instrumento de ascensão social.
5. Outra discrepância detectada tem a ver como os diferentes classificadores avaliam os erros, havendo quem os valorize e desconte e quem não os valorize e nada desconte. O Gave pretende que os erros sejam desvalorizados quando o aluno respondeu certo à questão, mesmo que se contradiga a seguir. Não concordo, os erros são para descontar porque mostram que o aluno por exemplo aplica uma fórmula, mas a seguir não consegue comentar o resultado, mesmo que este comentário / interpretação não seja pedido.
6. O Gave foi muito «eduquês» no ponto 5 e o contrário no ponto 4. Esta contradição será fruto da viragem que se adivinhava com o fim do consolado facilitista (MLR e Sócrates) na educação?
7. A acção foi útil pela discussão que promoveu entre pares e é essa que retenho, ao mesmo tempo que relativizo as intrusões do Gave.
8. Já agora como se escolheram os monitores desta formação, o meu era muito pouco experiente e daí talvez ser mais fácil a sua formatação e ter a certeza de que vai replicar sem questionar as instruções. Estamos a desvalorizar a pouca experiência com este tipo de monitores. Os monitores têm de ser respeitados pela sua formação académica adequada ou pela sua experiência, senão cheira a favores pessoais…

Rui Ferreira

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