Vou fazer a coisa de modo organizadinho por partidos, ou quase.

Bloco – campanha que melhorou com o tempo, mas em conjuntura claramente desfavorável. Perante um Jerónimo de Sousa empático e um PCP empatado consigo mesmo, o Bloco tornou-se o patinho feio da comunicação social. Francisco Louçã, praticamente o único rosto para consumo generalizado, em fraca forma também não ajudou. Depois de uns meses desastrosos (até já custa repisar os erros relacionados com a colagem a Alegre e ao PS nas presidenciais, assim como com a moção de censura), a campanha eleitoral arrastou-se de forma algo penosa, que as arruadas da fase final não conseguiram ocultar. O Bloco, que pareceu coeso enquanto inchou e ganhou espaço, ao perder o ar começou a mostrar as fissuras resultantes de um enorme choque de individualidades só teoricamente crentes na força das massas. As sondagens, sucessivas, não ajudaram quem pensou que agora era sempre a crescer. Ao que parece, o Bloco vai voltar ao seu eleitorado mais fiel, sendo provavelmente a única força política a perder votos para o PS, permitindo que a queda de Sócrates seja menor do que poderia ser.

CDS – campanha festiva, completamente centrada num Paulo Portas cada vez mais pop-star e beneficiando da quase certeza de chegar novamente ao poder, em aliança com o PSD. Crítico das sondagens desde sempre, desta vez o CDS é levado ao colo por nessas mesmas sondagens até às urnas.Antes de alguns excessos algo folclóricos nos últimos dias, o CDS beneficiou de ter uma narrativa de campanha e de ter sabido disputar votos a PS e PSD. Outra vantagem foi ter produzido slogans e não um programa de Governo, até por saber que terá de se adaptar ao parceiro maioritário na futura coligação governativa. Neste momento a expectativa é tal que um resultado bom em outras alturas (10-11%) pode ser encarado como relativa desilusão.

CDU – campanha sem pontos altos ou baixos, igual a si mesma, com as vantagens e desvantagens de um eleitoral praticamente fixo e que atingiu um ponto de quase nenhuma elasticidade. Nem perde fiéis, nem convence os incréus. Jerónimo de Sousa é bem recebido pela opinião pública e pela comunicação social, mas isso não se traduz em mais votos porque – vamos ser sinceros – o PCP/CDU diz o mesmo que sempre disse, com ligeiras variações. Vai conseguir ganhar ao mano mais novo que andava armado em parvo e isso será – mesmo que não publicamente assumida – uma das satisfações maiores do rescaldo eleitoral. Quanto ao resto, a mensagem de resistência à ingerência externa tem o seu apelo, mas depois esbarramos com o desejo da construção de um TGV perfeitamente despropositado para o nosso país.

PS – começou em baixa, contra todas as expectativas, mas conseguiu criar durante algum tempo a ilusão de um retorno à corrida, graças a apoios explícitos ou ocultos de muita gente interessada em que o PS não saia do Governo. Mas na última semana a ilusão começou a ceder e percebe-se que a campanha já é uma sucessão de truques, feitos com um automatismo que deixou de intimidar adversários e comunicação social. Paradoxalmente, e apesar da centralidade de Sócrates, foi a campanha que de forma mais concertada apresentou uma equipa a trabalhar em conjunto. Mas o voto contra – como cobrança pelo desempenho de seis anos de desvinculação entre realidade e discurso –  tornou-se central na campanha e o PS corre o risco de ter um resultado pouco acima das desastrosas europeias.

PSD – corre o risco de ganhar porque esse era o seu destino e quase que o vai conseguir apesar dos próprios erros, graças ao demérito do adversário. Na pré-campanha e primeiros dias de campanha foram cometidos sucessivos erros, demasiada gente falou, de forma descoordenada, como se todos quisessem ficar tanto no retrato vitorioso que quase arriscaram a derrota. As sondagens começaram a assustar e muita gente se calou, desde os snipers internos aos cortesãos demasiado ansiosos. Com um programa eleitoral arriscado, num país que tradicionalmente vota do centro para a esquerda e nunca escolheu uma maioria governativa de direita com um Presidente da República da mesma cor, o PSD acaba em crescendo, beneficiando do voto contra. Resta saber se entenderá o que isso significa e que não pode fazer o que Sócrates fez em 2005, ou seja, inebriar-se com a vitória e ceder às tentações fáceis.

MRPP – o maior dos partidos não-parlamentares vive de um núcleo restrito de militantes e do mediatismo de Garcia Pereira, que se tornou uma personalidade televisiva com alguma importância nos últimos anos. Só que, chegando o tempo da verdade, os favores encurtam-se e os chamados pequenos partidos foram colocados fora dos debates. Garcia Pereira conseguiu uma vitória judicial mas, na prática, de nada lhe serviu devido à conjugação da escassez de tempo, do elevado número de debates que seria preciso organizar e do desinteresse por parte dos privilegiados pelo modelo adoptado pelas televisões. Resta saber se a vitória moral terá dividendos políticos, mas é muito duvidoso.

Outros partidos – do histórico POUS ao neófito PAN há de tudo um pouco, passando pelo Partido Trabalhista Português do entertainer e globe-trotter político José Manuel Coelho e pelo zen new age MEP de Rui Marques. Sem paternalismo, são tudo propostas muito localizadas, para nichos de um mercado eleitoral escasso. O balão de Coelho esvaziou e todos juntos terão votos que dificilmente chegariam para eleger um par de deputados se os dez partidos concorressem em coligação.

Cavaco Silva – um dos grandes responsáveis por este processo eleitoral intercalar, que de início fez uns avisos à navegação aos quais ninguém prestou verdadeira atenção. Depois calou-se, que é uma das coisas que deveria fazer mais vezes, se possível resistindo a enviar recados por interpostos canais. A sua insistência em querer uma aliança PS-PSD tornou-se demasiado notória, assim como – com outros – fez o possível para que o PSD não ganhe por muitos, exactamente para forçar a solução do Pântano Central. Disparatada a plantação de algumas notícias, em especial via Expresso, como aquela discordância (desmentida, claro) com uma orgânica de 10 ministérios. Vai ter, quase certamente, de aguentar um governo Passos Coelho/Portas, dois dos putos reguilas que nos anos 90 lhe fizeram frente, durante as suas largas maiorias. Não deve ficar muito feliz com isso. Ainda bem.